Não caia no mito do “risco de morte”: o certo é e sempre foi “risco de vida”

Alguém que pode morrer a qualquer momento corre “risco de vida” ou “risco de morte”? Só uma das duas expressões existe nos dicionários, gramáticas e clássicos portugueses e brasileiros – “risco de vida” é a forma usada pelos clássicos da língua portuguesa há séculos. Já “risco de morte” é uma forma inventada em tempos de Internet, pelos “gênios” do século XXI que decidiram tentar deixar a língua mais lógica…

Já falamos aqui sobre os falsos erros, ou erros inventados de português. E não são poucos esses erros inventados, em grande parte porque existem os inventores profissionais de falsos erros: são aqueles homens e mulheres que vivem de corrigir erros de português dos outros, e que chegaram à conclusão de que é conveniente inventar regras que não existem, criando assim novos “erros” de português – pois, afinal, o seu prestígio e a sua renda vêm justamente da insegurança que esses charlatães disseminam entre os falantes da língua.

Uma dessas recentes invencionices é o tolo mito de que “risco de vida” seria expressão incorreta e a ser substituída por “risco de morte”, porque a expressão “risco de vida” não seria “lógica”.

A verdade é que “risco de vida” tem tanta lógica quanto “risco de morte”: em ambas existe uma elipse: a omissão de parte da frase. Em risco de vida, subentende-se risco de perder a vida. Já “risco de morte” seria o risco de se chegar à morte.

Então dá no mesmo dizer “risco de vida” ou “risco de morte”?

Quase. Porque há uma importante diferença entre as duas formas: “risco de vida” é forma tradicional em português, histórica. Já vinha em dicionários de 1800. É “risco de vida” a expressão que se encontra ao ler os grandes clássicos brasileiros – Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, etc. – e portugueses, como Garrett e Camilo Castelo Branco (ver imagem ao fim deste texto).

Já em 1640 encontramos exemplo de “risco de vida”, em Apolo, de Francisco Manuel de Melo: “A nada se rendeu, detendo-se a seu respeito todo o curso dos negócios, com desabrimento de el-Rei e valido, que nem pessoalmente rogando-lhe o seu voto deixou também o Cellis de lho negar pessoalmente. Sucedeu neste tempo adoecer com grande risco de vida e, confessando-se para acabá-la, lhe persuadiu o confessor (que devia de ir bem persuadido…) consentisse na vontade de el-Rei.”

Os grandes clássicos da língua portuguesa sempre usaram risco de vida, e nunca “risco de morte“. “Risco de vida” é uma expressão consagrada em português, com séculos de vida. “Risco de morte” é uma invencionice dos tempos da Internet.

“Risco de vida” é, por exemplo, a única forma registrada no Dicionário Houaiss. Já “risco de morte” é um artificialismo sem tradição na língua, inventado há poucos anos por charlatães da língua.

E, embora a grande mídia seja, em geral, agente propagador desse tipo de erros inventados, felizmente “até” a Revista Veja e o professor Pasquale concordam neste aspecto: “risco de morte” é um modismo injustificado. Não caia, portanto, nessa: a forma tradicional – e corretíssima – em português é mesmo “risco de vida“.

risco de vida

O champanhe ou a champanhe? Uma champanhe ou um champanhe? Masculino ou feminino?

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O certo é o champanhe ou a champanhe? Diz-se uma champanhe ou um champanhe? Resposta: de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras e com dicionários brasileiros (como o Houaiss) e portugueses (como o Priberam), tanto faz: é tão correto dizer e escrever “o champanhe” e “um champanhe” quanto “a champanhe” e “uma champanhe”.

A palavra vem do francês: champanhe de verdade é a bebida espumante produzida na região de Champagne, na França. É um tipo de vinho, e é por isso que, em francês, o substantivo é masculino: diz-se “um champanhe”, como redução de “um vinho champanhe”, isto é, “um vinho da região de Champagne” (em francês, “gn” tem a pronúncia do nosso “nh”).

Foi assim, no masculino, que o substantivo entrou em Portugal, e foi assim que chegou ao Brasil. Mas, sobretudo no Brasil, o que ocorreu foi que, entre todas as classes sociais e entre gente de todas as escolaridades, a palavra se tornou comum de dois gêneros: passou-se a ouvir tanto “uma champanhe” quanto “um champanhe”, tanto “a champanhe” quanto “o champanhe”.

Há explicações possíveis para essa alternância de gênero: houve, por exemplo, os puristas da língua, que, antes de se preocuparem com a influência do inglês, temiam horrorizados o francês, quando essa língua tinha uma influência que hoje não mais tem. E por isso esses puristas diziam que essa terminação em “e”, típica do francês, não era típica do português, e que portanto, palavras francesas como champanhe – assim como nuancemadamevitrine, avalanche – em português deveriam ser adaptadas com “a” final, terminação mais “portuguesa”: deveria dizer-se, portanto, “nuança”, “madama”, “vitrina”, “avalancha”… e “champanha”.

Os puristas de uma língua, aqueles que acreditam que a maioria dos falantes são uma ameaça para a própria língua que falam e que é sempre preciso guiá-los, sofrem de um mal – quase sempre o tempo, o passar dos anos, os ridiculariza e mostra que estavam errados; a língua e o mundo avançam mostrando que seus medos, e eles próprios, eram desnecessários. Foi o que aconteceu com as propostas “madama”, “vitrina”, “avalancha”, “nuança” e “champanha”, que acabaram relegadas, tanto em Portugal quanto no Brasil, apenas aos dicionários, sem uso real, substituídas pelas formas que, com a preferência da população, acabaram ganhando a preferência até dos dicionários – madame, vitrine, avalanche, nuance… e champanhe.

No caso de champanhe/champanha, porém, os puristas acabaram dando um tiro no pé: defendiam que a grafia melhor era “champanha”, mas queriam que o substantivo fosse masculino, como na França. Ora, qualquer criança brasileira ou portuguesa sabe que a quase totalidade das palavras portuguesas terminadas em “a” é feminina, mas não masculina; “se o ‘certo’ é champanha, então é palavra feminina: a champanha, uma champanha“, deve ter pensado muita gente inteligente, seguindo a perfeita lógica da língua.

Ao querer “corrigir” à força algo da língua que não precisava de correção, esses puristas parecem ter reforçado uma instabilidade que os deixaria desgostosos. Passou-se a ouvir, entre gente de todos os meios e classes sociais, tanto “o champanhe” quanto “a champanhe”, “uma champanhe”. A tal ponto que, como já vimos, há décadas a Academia Brasileira de Letras oficializou o duplo gênero da palavra, no que foi seguida pelos dicionários.

E fizeram bem a Academia e os dicionários, porque o fato de um substantivo ser feminino em francês não implica que em português tenha de ter o mesmo gênero – basta pensar em crepe, outro item gastronômico francês, que na França é feminino (“la crêpe”), mas que em português virou um crepe. E fizeram bem também porque deram a “champanhe” o mesmo tratamento que o dado a outros substantivos terminados em “e”, que no Brasil alternam entre o feminino e o masculino, como o omelete ou a omelete ou a quiche ou o quiche.

E, certo de que haverá quem ache um absurdo a Academia Brasileira de Letras, o Houaiss e demais dicionários terem “oficializado” o uso indiferente de “a champanhe” ou “o champanhe”, por achar que a forma masculina é a legítima, já que  a palavra entrou no português como um substantivo masculino, convém então lembrar que os substantivos terminados em “e” têm uma instabilidade de gênero histórica em português – é algo que se vê hoje em “grafite” (um grafite para lapiseira ou uma grafite?), mascote, diabete(s), alface, etc. -, mas que nada mais é que o mesmo por que passaram, em português, os substantivos “árvore” e “ponte”, entre outros.

Sim, basta lembrar que em português antigo tanto “árvore” quanto “ponte” eram masculinos – como ainda o são em espanhol, francês, italiano. De tanto as pessoas usarem, “errado”, “uma ponte”, “a ponte”, “uma árvore”, “a árvore”, essas formas “erradas” passaram a ser as corretas. É o mesmo que ocorreu parcialmente com champanhe décadas atrás – é um fato da língua que é indiferente, portanto, dizer hoje “a champanhe” ou “o champanhe”.

“Boas festas” não leva hífen – ao desejar boas festas, use sempre sem hífen

(Adendo: logo após esta postagem, o dicionário Houaiss corrigiu o erro que havia no dicionário: o editor-chefe do Houaiss admitiu o erro e acaba de tirar o hífen, errado, que vinha em boas-festas como forma de cumprimento – ver abaixo.)

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O jornal Correio Braziliense deve achar que estamos no Dia da Mentira, porque hoje compartilhou tuíte de sua consultora de português dizendo, simplesmente: “Boas-festas se escreve assim — com hífen”. Erro feio da consultora, erro grave do Correio Braziliense: na verdade, boas festas não leva hífen.

Sempre que for desejar boas festas a alguém, o correto é sem hífen: “Boas festas!” – do mesmo modo que se escreve “Bom dia”, “Boa tarde”, “Boa noite”, sempre sem hífen.

A regra é tão simples que deveríamos parar por aí – boas festas, boa noite, bom dia não levam hífen, ponto. Isso porque isso cobre quase 100% dos casos em que se escrevem as expressões “boas festas” e “boa noite”, “bom dia”, “boa tarde”…

A confusão da consultora deve vir do fato de que até existe um único caso em que pode ser correto usar hífen em “boas-festas” (e em “bom-dia”, etc.) – mas nunca quando se está desejando algo a alguém. A tal exceção é quando se toma a frase toda como um substantivo – mas isso não se restringe a “boas festas”, aplicando-se na verdade a qualquer frase tomada como um substantivo:

João me deu um boa-noite seco.

Não aguento mais ouvir a Helena repetindo feliz-natal-e-próspero-ano-novo vinte vezes por dia.

Abra a porta, só vim te dizer boas-festas.

Em todos esses casos, porém, o hífen poderia ser trocado por aspas – o que é mesmo a forma mais comum hoje em dia:

João me deu um “boa noite” seco.

Não aguento mais ouvir a Helena repetindo “feliz Natal e próspero ano novo” vinte vezes por dia.

Abra a porta, só vim te dizer “boas festas”.

Esse raríssimo caso em que o uso de hífen seria aceitável, como se viu, nada tem a ver especificamente com a expressão “boas festas” – e é um caso tão raro e específico que mais vale a pena não mencioná-lo, e simplesmente ensinar que “boas festas” não leva hífen, que é a regra geral.

Afinal, se a exceção faz até a consultora de português de um grande jornal se confundir e errar, é porque a menção a essa exceção tão peculiar de fato confunde.


Adendo: possivelmente o erro da consultora se deveu ao fato de, como muitas vezes ocorre com consultores linguísticos, ter confiado cegamente no Houaiss e tratado o dicionário como palavra divina, sem saber, como sabemos todos os visitantes daqui da página, que o Houaiss, como todo grande dicionário, tem centenas de erros. Logo após fazer a postagem aqui, alertei o coautor e atual responsável pelo Houaiss, Mauro Villar, do erro, que prontamente respondeu admitindo o erro e informando que já fez a correção sugerida por esta página:

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O nome oficial da Rússia em português não é Federação Russa

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Outra tradução que revela que muito do que se escreve no Brasil e em Portugal sobre relações internacionais é pura tradução apressada do inglês é o tratamento geralmente dado à Rússia como “Federação Russa“. Esse não é o nome do país – é apenas a tradução direta do inglês Russian Federation, inapropriada em língua portuguesa.

Como a gramática russa é distinta da nossa, o nome do país pode ser traduzido como “Federação Russa” em algumas línguas, como o inglês, e como “Federação da Rússia” em outras, como as línguas latinas. É por isso que, nas traduções oficiais da constituição do país, se vê que, embora o nome oficial seja Russian Federation em inglês, em francês a forma oficial é Fédération de Russie; do mesmo modo, em espanhol, a forma oficial é Federación de Rusia; e em português, o nome do país é Federação da Rússia – e não Federação Russa.

É Federação da Rússia que usa o próprio governo russo em português, como se vê nas páginas de suas embaixadas no Brasilem Portugal, em Angola, etc.; é também a forma usada pelo governo brasileiro, pelo governo português, pelo governo angolano, etc.

Não existe, em português, a “Federação Russa” – apenas em traduções descuidadas do inglês.

Por outro lado, estão também errados os que acham que “Rússia” é uma nomenclatura incorreta ou informal, e que o correto é sempre usar, em vez de “Rússia”, a forma longa “Federação da Rússia”. “Rússia” é tão informal quanto “Brasil”, “Portugal” ou “Suécia” – que são os nomes comuns, ou formas curtas, das formas longas ou oficiais “República Federativa do Brasil”, “República Portuguesa” e “Reino da Suécia”. Nos mesmos contextos em que se usaria “Brasil” em vez de “República Federativa do Brasil”, portanto, é perfeitamente correto chamar simplesmente “Rússia” à Federação da Rússia.

Imprensa brasileira: Abbas é “presidente da Palestina” ou “presidente palestino” (e não “presidente da Autoridade Palestina”)

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É facílimo ver que praticamente inexiste cobertura jornalística brasileira de fatos internacionais – o que se lê nos jornais e portais brasileiros são quase sempre simples traduções semiamadoras da imprensa de língua inglesa.

Isso fica óbvio, por exemplo, na tradução errada, tão frequente em artigos preguiçosos na mídia brasileira, de “International law” como “lei internacional”. Não existe uma lei internacional; a tradução correta é “direito internacional”; o que frequentemente se viola é “o direito internacional” – do mesmo modo que estudar “Law” significa estudar Direito, e não “lei”.

A mesma técnica de tradução preguiçosa se revela em quase todos os textos brasileiros que mencionam Mahmoud Abbas como o suposto “presidente da Autoridade Nacional Palestina“, ou “presidente da Autoridade Palestina” – quando o título por ele usado é “presidente do Estado da Palestina”, que pode ser resumido como “presidente palestino”, ou “presidente da Palestina”.

A Organização das Nações Unidas e a maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, reconhecem o Estado da Palestina e, por essa razão, tanto a própria ONU quanto o governo brasileiro (e os da maioria dos países do mundo) naturalmente chamam seu presidente de “presidente palestino”, “presidente da Palestina”, “presidente do Estado da Palestina” – da mesma forma que chamam a Shimon Peres e a seu sucessores “presidente israelense”, “presidente de Israel” ou “presidente do Estado de Israel”. O Brasil, a ONU e a maioria dos países do mundo reconhecem igualmente o Estado de Israel e o Estado da Palestina.

Só os governos dos Estados Unidos e de alguns países da Europa ocidental, como o britânico, não reconhecem o Estado da Palestina, por pressão de Israel (e do mesmo modo que dezenas de países árabes e muçulmanos não reconhecem o Estado de Israel). Como os seus governos não reconhecem o Estado da Palestina, as imprensas americana e britânica não chamam Mahmoud Abbas de “presidente da Palestina” e nunca falam em “Estado da Palestina”, ou na Palestina como um país. Mas não faz o menor sentido que também a imprensa brasileira siga a prática americana e britânica, quando o governo brasileiro (e, reitera-se, a própria ONU) chama Abbas de “presidente da Palestina”, título de fato usado pelo próprio, e mantém mesmo relações diplomáticas com o Estado da Palestina.

Sobretudo porque isso sabidamente não se deve a um posicionamento político ou ideológico da imprensa brasileira, mas à simples tradução preguiçosa de notícias da imprensa de língua inglesa.

 

O advérbio “só” obriga próclise (pronome antes do verbo)

Já falamos (aqui e aqui) daquele que deve ser o mais feio dos erros de português: as ênclises (pronome átono depois do verbo, como em “torna-se”) erradas, cometidas por brasileiros que, tentando parecer chiques e usar uma colocação típica do português de Portugal, acabam metendo o pronome após o verbo em casos em que todos os portugueses usam o pronome antes do verbo (“se torna”, como todo brasileiro), porque a gramática obriga a próclise nesses casos.

No português brasileiro oral, praticamente só ocorre uma única colocação espontânea: o pronome antes do verbo (o que se chama próclise): eu me chamo; me diz uma coisaeu te disse.

Já no português de Portugal de hoje (nem sempre foi assim), ocorrem, em aproximadamente metade dos casos, ênclises – isto é, o pronome depois do verbo: eu chamo-mediz-me uma coisaeu disse-te. Mas em cerca de metade dos casos – quando há na frase, antes do verbo, qualquer uma de uma série de palavras que “atraem” o verbo, como conjunções como a palavra “que” ou advérbios como “também” -, os portugueses também usam, obrigatoriamente nesses casos, a próclise: “Não me diga; Eu também me chamo RobertoO que eu te disse foi que não“. Exatamente como os brasileiros.

E são tantos esses casos em que há, na frase, alguma palavra que obriga o pronome a vir antes do verbo, que na prática aproximadamente metade das frases escritas ou ditas por um português usa a próclise – o pronome antes do verbo. Nesses casos todos, a gramática diz que é errado usar a ênclise. É um erro horrível, portanto, escrever ou dizer coisas como *Não diga-me; *Eu também chamo-me; *o que eu disse-lhe.

São erros especialmente feios porque conseguem ao mesmo tempo violar a gramática tradicional, do português de Portugal, e também o português brasileiro oral. Em resumo, são erros feios que só ocorrem quando alguém tenta artificialmente falar “difícil” – e falha.

Um caso desses acaba de ser publicado no jornal O Estado de S. Paulo:

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Advérbios como “só” obrigam que o pronome venha antes do verbo. Todo português, culto ou inculto, escreveria e diria “só se tornou”. Todo brasileiro naturalmente também diria, corretamente, “só se tornou”. Mas o jornalista, querendo escrever de maneira “chique”, acabou cometendo um erro de português.

E mais: palavras como “que”, “onde”, “quando” e os advérbios que obrigam próclise  (“só”, “também”, …) continuam a obrigar próclise mesmo que haja outras palavras entre a palavra atrativa e o pronome.

Ou seja, mesmo no caso abaixo, extraído da Folha de S.Paulo, a colocação está absolutamente errada. A única forma correta, tanto em Portugal quanto no Brasil, nos dois casos, continuaria sendo “se tornou”:

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Nessa frase da Folha de S.Paulo, aliás, o erro é duplo: o “se” deveria vir obrigatoriamente antes do verbo não apenas por causa da palavra “só”, mas também por causa do “que” – palavra que, como já vimos, obriga a próclise.

Pode surpreender muitos brasileiros, que foram mal ensinados na escola, que mesmo havendo vírgula logo antes do verbo, mesmo com uma oração inteira intercalada, o pronome continua devendo vir antes do verbo em casos como este:

Até hoje ele não sabe que o filho, contra todas as expectativas, se divorciou logo depois do casamento.

Sim; apesar de a maioria dos brasileiros cultos e que se creem “bons de português” acreditar que, depois de vírgula, sempre se pode (ou se deve) usar a ênclise, não. Foram mal ensinados na escola. Mesmo em casos como o acima, com uma oração intercalada por duas vírgulas, aquele “que” continua obrigando que o “se” venha antes de “divorciou”. Nada de “divorciou-se”, portanto.

Em outras palavras: na dúvida, é só não inventar: deixe o pronome antes do verbo, como lhe seria natural – “se divorciou“, “se arrependeram“, etc.

E esse erro – esse uso de ênclises erradas quando a norma culta obriga a próclise – é, aliás, muito comum na Folha de S.Paulo, como se vê nos exemplos abaixo, todos tirados do jornal – e todos absolutamente errados de acordo com a norma culta da língua:

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Motosserra ou serra elétrica? O massacre da serra elétrica deveria ter outro nome

Eis uma postagem numa página de humor no Facebook:

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A ótima piada acaba por levantar uma interessante questão linguística: de fato, por que chamamos, em português, de serra elétrica o objeto que não é movido a eletricidade, mas a gasolina?

Com efeito, segundo a Internet (por exemplo a Wikipédia e a Magazine Luiza), serra elétrica não é o mesmo que motossera; a motosserra é a movida a gasolina, em geral maior que a elétrica.

Desse modo, a suposta piada de Facebook acaba sendo uma ressalva de fato pertinente: a franquia de filmes The Chainsaw Massacre deveria mesmo, em português, ter sido chamada O Massacre da Motosserra, e não O Massacre da Serra Elétrica, como acabou sendo.

Possível culpa de alguns dicionários, como o Houaiss, que dizem que motosserraserra elétrica são sinônimos – não são, como, felizmente, se vê corretamente em outros dicionários, como o Aurélio e o Aulete.

O Houaiss erra, ainda, ao afirmar que a palavra surgiu em português “depois de 1975“; na verdade, surgiu bem antes disso, já que na edição de 05/08/1964 do jornal O Estado de S. Paulo encontro:

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A antiga “moto-serra”, atualmente, escreve-se motosserra – com dois ss, para manter o som inicial de “serra”.

Até antes disso, um termo que se chegou a usar no Brasil em lugar de motosserra (ou serra elétrica) foi “serra de corrente” – tradução literal do inglês chainsaw.

Mas mesmo a motosserra não é uma invenção nossa – a pesquisa mostra que poucos anos antes da primeira aparição da nossa “motosserra”, começara também a aparecer nos países de língua espanhola a “motosierra“, a ponto de o boletim do departamento de Linguística e Filologia da Universidade do Chile ter publicado, sobre o prefixo “moto”, a observação de que este passava a usar-se para designar…

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O certo é bolacha ou biscoito? No Brasil, é lei: biscoito e bolacha são sinônimos

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Uma discussão capaz de de exaltar ânimos, no Brasil, diz respeito a como chamar o alimento das fotos acima: bolachas ou biscoitos?

Qualquer exaltação de ânimos, porém, é injustificada: pela lei brasileira, biscoito e bolacha são sinônimos perfeitos; nenhum dos dois nomes é mais correto que o outro. São, pela lei brasileira, exatamente a mesma coisa, apenas com uso predominante em estados diferentes do Brasil.

Por resolução em vigor amparada pelo decreto-lei nº 986, de 1969, que instituiu as normas sobre alimentos no Brasil, a Comissão Nacional de Normas e Padrões para Alimentos determina que “Biscoito ou bolacha é o produto obtido pelo amassamento e cozimento conveniente de massa preparada com farinhas, amidos, féculas fermentadas, ou não, e outras substâncias alimentícias. O produto é designado por “biscoito” ou “bolacha”.

O que explica o uso de um ou outro termo é, simplesmente, a tradição regional. Uma das fronteiras linguísticas nessa área se dá entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro: enquanto paulistas dizem bolacha, os cariocas dizem biscoito – e argumentam em geral que prova de sua correção é o fato de os próprios produtores usarem a palavra “biscoito” nas embalagens.

É certo que a maioria dos grandes fabricantes brasileiros de alimentos usa, na embalagem, o termo “biscoito”, mas vale lembrar que em Portugal o alimento é chamado de bolacha, e que bolacha é também o termo usado pela maior parte do Brasil – tanto em território, quanto população. Confira o mapa:

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É interessante a divisão do país na questão. A linha divisória passa pelo meio do estado de Minas Gerais, cuja metade sul e oeste falam bolacha – como também o fazem São Paulo, toda a região Sul, os quatro estados do Centro-Oeste e a maior parte da região Norte. Já biscoito é a forma usada no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, no Pará, no Amapá, em Belo Horizonte e em grande parte de Minas Gerais e em quase toda a região Nordeste (com exceção do Rio Grande do Norte, onde predomina bolacha, e do Ceará, o único estado em que a maioria dos respondentes afirmou ser indiferente o uso de bolacha ou biscoito).

No Pará, no Amapá e nos estados do Nordeste que chamam aquilo da foto de biscoito, criou-se mesmo uma particularização: bolacha, entre eles, designa as salgadas, e biscoito, os doces.

É interessante também que, embora seja um quadradinho dentro de Goiás (que fala bolacha), a capital Brasília (muito provavelmente pela origem sobretudo nordestina de sua população) fala biscoito. A qualquer carioca ou brasiliense que pense que o fato de na capital do país se dizer “biscoito” contar como prova de que é forma preferível, vale lembrar que em Portugal, pátria-mãe da língua, a forma usada em todo o país é bolacha – como se vê, por exemplo, nos supermercados portugueses:

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Ainda do ponto de vista linguístico, há duas observações que podem ser feitas sobre o tema: a primeira é que a dicotomia bolacha-biscoito acaba influenciando o falar dos brasileiros mesmo quando não usam nem a palavra “biscoito” nem a palavra “bolacha”. Como? Ao usar o nome das marcas da foto que abre este texto, por exemplo, um paulista (ou sulista, ou mato-grossense, ou amazonense) dirá que comprou “uma Bono“, “uma Passatempo“, “uma Negresco“, “uma Oreo” (ou seja, “uma bolacha Bono“, “uma bolacha Passatempo“), enquanto um carioca, capixaba ou pernambucano dirá, referindo-se aos produtos dessas marcas brasileiras: “um Bono“, “um Passatempo“, “um Negresco“, “um Oreo“.

O segundo debate linguístico suscitado pelo tema vem do relato de pessoas da área do Brasil que fala bolacha (a maior parte do Brasil) que afirmam conhecer pessoas que usam o termo “bolacha” no dia a dia, mas que, quando querem falar de forma mais “chique” – no trabalho, por exemplo -, usam “biscoito”.

Essa mudança forçada revela simplesmente ignorância, já que biscoito não é mais formal, nem mais correto, nem mais chique do que bolacha. Vê-se aí apenas mais um reflexo do fenômeno, já várias vezes abordado aqui, de hipercorreção: o mal da insegurança linguística que atinge muitos brasileiros, que faz que pensem que, “se eu normalmente falo assim, o mais ‘correto’ deve ser da outra forma“.

De uma vez por todas: em Portugal, o termo usado é bolacha, mas, no Brasil, bolacha e biscoito são sinônimos, igualmente corretos e equivalentes dos pontos de vista técnico, legal e linguístico.

O certo é fim de semana ou final de semana?

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O certo é fim de semana ou final de semana? É errado referir-se ao sábado e ao domingo como o final de semana?

A resposta rápida é que a forma tradicional para se referir ao sábado e ao domingo, em português, é fim de semana – mas a explicação que se dá para isso em muitas páginas por aí é que está errada.

Internet afora, há muitos metidos a sabichões que afirmam que a expressão final de semana é um erro, porque final não é substantivo; segundo eles, final é um adjetivo, o contrário de inicial, e o substantivo, contrário de início, é fim. Estão errados.

Estão errados, porque a palavra final é, sim, um substantivo, mas é também, é claro, um adjetivo; como nos casos de milhares de outras palavras da língua portuguesa, estamos diante de duas palavras idênticas, porém distintas. Assim, do mesmo jeito que jantar pode ser um verbo (Quero jantar) e um substantivo (Onde será o jantar?), também existem duas palavras diferentes que se escrevem, igualmente, final: o adjetivo final, contrário de inicial (a metade final do jogo), e o substantivo final, contrário de início, começo, princípio. Isto é, do mesmo modo que início tem sinônimos (começo, princípio), também a palavra fim tem um sinônimo perfeito, que é a palavra final.

É perfeitamente correto, portanto, falar sobre o final de um filme, o final de um jogo, o final de um século, etc.

Mas e quanto a final de semana? Nada há de errado em usar também a expressão, principalmente em seu sentido literal – como em “Devo terminar o trabalho mais para o final da semana” – isto é, lá pela quinta-feira, sexta-feira, sábado…

Já para se referir especificamente ao período de tempo entre o sábado e o domingo, o melhor efetivamente é dizer, em vez de final, fim de semana. Mas por quê?

Simplesmente porque fim de semana é a expressão consagrada em português; sim, fim e final são sinônimos, mas a expressão que se consagrou em português para chamar ao sábado e ao domingo é fim de semana (o que seria mesmo discutível de um ponto de vista exageradamente literal ou técnico, já que o domingo, em português, é o primeiro dia da semana).

Tanto é fim de semana a forma tradicional e consagrada que essas três palavrinhas chegaram a compor uma locução em português, e, por essa razão, escreviam-se (sobretudo em Portugal) com hifens até recentemente: o fim-de-semana. Por outro lado, nunca se escreveu final-de-semana, pois essas três palavras nunca chegaram a compor uma verdadeira locução. Cabe notar, porém, que o novo Acordo Ortográfico determinou a queda dos hifens em todas as locuções com “de” no meio – assim, do mesmo modo que mão-de-obra virou mão de obra e que sala-de-estar virou sala de estar, também fim-de-semana virou fim de semana.

Além da tradição, a razão para preferir fim de semana (e não final de semana) é simplesmente que a primeira é mais simples e direta – com uma sílaba a menos, é ligeiramente mais eficiente de um ponto de vista linguístico.

Já “final de semana” tem ares de hipercorreção: aquele fenômeno que faz que, muitas vezes, acabemos evitando a expressão mais natural e corriqueira em favor de uma menos natural, por acreditarmos no mito de que, se normalmente falamos de um jeito, o certo deve ser de outro jeito (é o que faz, por exemplo, muitos brasileiros dizerem recentemente que estão em férias ou que sairão em férias, em vez da mais tradicional, natural e correta forma “de férias, ou o que faz que tantos brasileiros – que, como os portugueses, sempre dizem num numa – achem mais “chique” escrever artificialmente “em um” e “em uma”).

Por tudo isso, não tenha dúvida: na hora de falar (ou escrever), dê preferência à forma fim de semana – mas nada de condenar quem use final de semana, que não chega a ser erro.

 

“Apelido”, em Portugal, é sobrenome (como “apellido” em espanhol)

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Um casal de brasileiros no exterior teria preenchido, no campo “Apelido” na página de compras de uma companhia aérea europeia, os apelidos carinhosos com que chamam um ao outro: “Amorzão” e “Princesona“. Que acabaram saindo impressos nas passagens, no lugar dos sobrenomes.

Aos que duvidaram: sim, a história é real, e Amorzão e Princesona  até conseguiram embarcar, no fim das contas (ver aqui).

Assim que a história passou a ser divulgada, muita gente supôs que Princesona e Amorzão tivessem feito a compra numa página em espanhol.

De fato, em espanhol “apellido” significa sobrenome, nome de família. Mas não foi o caso: em viagem pela Europa, o casal fez a compra na versão em português da página de uma companhia holandesa… que estava, naturalmente, em português europeu – isto é, português de Portugal.

Similarmente ao “apellido” espanhol, em Portugal o sentido mais usual de “apelido” é o de sobrenome, nome de família.

Já para o sentido mais usual no Brasil de apelido – o usado por “Amorzão” e “Princesona”, por exemplo -, os portugueses usam sobretudo o termo alcunha.