O Acordo Ortográfico… de 1931

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Aos que tiverem interesse, além do texto do “novo Acordo Ortográfico” (de 1990) e da antiga grafia em vigor no Brasil (a de 1943), acabamos de colocar também no ar a íntegra do quase esquecido Acordo Ortográfico de 1931, que em muito aproximou as grafia do Brasil e de Portugal (embora ainda tenha deixado muitas divergências).

A íntegra do texto do Acordo Ortográfico de 1931 está disponível aqui.

Singapura ou Cingapura? Na nova ortografia, é Singapura.

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Cingapura ou Singapura? Na nova ortografia, é Singapura. O novo Acordo Ortográfico (obrigatório a partir de 1º de janeiro de 2016) manda expressamente grafar “Singapura” “com “S” – “e não com C“.

É o que lembra a própria embaixada de Singapura no Brasil (ler aqui).

O Acordo Ortográfico de 1990 (que, apesar do nome, se  tornou obrigatório em Portugal apenas em 2015, e no Brasil apenas em janeiro de 2016) traz em seu texto uma seção inteira dedicada às letras que, na língua portuguesa, representam sons idênticos, a “Base III“.

O texto do Acordo – negociado entre brasileiros, portugueses e outras sete delegações lusófonas – achou por bem especificar a grafia correta de palavras que geravam dúvidas ou que historicamente tinham alternado entre diferentes escritas.

A Base III do Acordo começa, por exemplo, listando casos em que se deve fazer “distinção gráfica entre chx“: deve-se escrever flechabucho, com ch; mas xerife e xícara (o primeiro Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, de 1943, e sua edição seguinte, de 1981, aceitavam, ambos, as grafias xícarachícara como válidas e sinônimas; na edição de 2004, a opção chícara finalmente desapareceu, conforme o disposto no Acordo Ortográfico).

Posteriormente, dedica-se o Acordo às palavras com o som que pode ser grafado sssç. Assim – esclarece o texto do Acordo -, deverão ser escritas exclusivamente com s: “ânsia, ascensão, aspersão, cansar, conversão, esconso, farsa, ganso, imenso, mansão, mansarda, manso, pretensão, remanso, seara, seda, Seia, Sertã, Sernancelhe, serralheiro, Singapura, Sintra, sisa, tarso, terso, valsaMais explícito, impossível.

A inclusão do nome do país no texto do Acordo pôs fim a uma alternância histórica. No próprio país, em malaio, língua oficial do país, escreve-se “Singapura“. Em inglês, escreve-se Singapore. Também se escreve com S o nome do país em todas as demais línguas que usam nosso alfabeto – espanhol, francês, italiano, alemão, todas – e, desde 1945, em todos os outros oito países que têm o português como língua oficial. A exceção foi o Brasil, que não ratificou o Acordo Ortográfico de 1945.

Historicamente, a língua portuguesa havia alternado entre as duas grafias, registrando-se também Cingapura em Portugal e Singapura no Brasil: em 1967, por exemplo, o governo brasileiro criou a embaixada do Brasil em Singapura – com “S” mesmo. Meio século antes, em 1911, o governo brasileiro criara um consulado em Singapura – também com “S“.

A indefinição entre as grafias com s ou com foi resolvida em Portugal e nos demais países lusófonos pelo Acordo Ortográfico de 1945. O Brasil, porém, foi o único país que não adotou a ortografia de 1945 (razão pela qual, até 2009, o Brasil tinha uma ortografia diferente da dos oito outros países lusófonos).

O novo Acordo, por fim, resolveu essa situação peculiar em que o Brasil era o único país do mundo a grafar o nome de Singapura com “C“.

O Dicionário Aurélio, em sua edição pós-Acordo Ortográfico, já eliminou as formas “cingapurense” e “cingapurano“, passando a registrar apenas singapurense e singapurano.

O dicionário Michaelis e o do Professor Pasquale (foto abaixo) também já apagaram qualquer vestígio de cingapurense ou Cingapura, registrando agora apenas formas com “S”.IMG_1917IMG_1918

Finalmente, os dicionários Larousse também já se adaptaram desde antes da entrada em vigor do Acordo: desde a edição de 2009, cingapurense já vinha com o “alerta”: A partir de 2013, escreve-se singapurense.

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E também o Dicionário Houaiss, em sua versão eletrônica, atualizada:

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Inicial maiúscula em cargos: escreve-se papa ou Papa? O presidente ou o Presidente?

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Deve-se escrever “o papa Francisco” ou “o Papa Francisco”? O “Presidente Obama” ou o “presidente Obama”? O Embaixador ou o embaixador”?

Resposta: O novo Acordo Ortográfico revogou a antiga regra ortográfica que mandava escrever com inicial maiúscula os nomes de “altos cargos e postos”. Na nova ortografia, pela regra geral, todo e qualquer cargo deve ser escrito com inicial minúscula (“presidente”, “papa”, “ministro”). O Acordo Ortográfico permite, porém, o uso opcional da inicial maiúscula para “os títulos honoríficos, as formas de tratamento, as expressões de reverência” e, de modo geral, “em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente“.

As regras ortográficas de 1943, oficiais no Brasil até a entrada em vigor do novo Acordo Ortográfico, obrigavam o uso de maiúsculas nesses casos. Estipulavam o uso de inicial maiúscula “nos nomes que designam altos cargos, dignidades ou postos: Papa, Cardeal, Arcebispo, Bispo, Patriarca, Vigário, Vigário-Geral, Presidente da República, Ministro da Educação, Governador do Estado, Embaixador, Almirantado, Secretário de Estado, etc.

Essa regra, que valia apenas no Brasil, tinha o grande defeito de pressupor que cada usuário da língua concordasse quanto a quais cargos e postos eram “altos” o suficiente para merecerem maiúscula, e quais deveriam ficar com minúscula. Ministro ia com maiúscula, mas “Professora” ou “professora”? “Papa”, “Cardeal” e “Bispo” com maiúsculas, mas “padre” não? E “pastor”? E “babalorixá”?

Tão falha era a regra que a imprensa e a maior parte dos autores brasileiros acabaram por abandoná-la antes mesmo do novo Acordo Ortográfico: à luz inclusive do “politicamente correto”, os jornais e revistas, não querendo tomar para si a ingrata tarefa de decidir se “vereador” ou “vice-cônsul” eram cargos altos o suficiente para merecer maiúsculas, passaram a escrever todo e qualquer cargo com minúsculas: “o presidente da República”, “o papa”, “a rainha Elizabeth”, “o embaixador da França”.

Na nova ortografia, a antiga regra foi revogada e substituída pelo que já se seguia na prática: como substantivos comuns que são, os cargos escrevem-se, via de regra, com iniciais minúsculas. O uso de iniciais maiúsculas, porém, é admitido, opcionalmente, “em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente“.

(“Aulicamente” significa, originalmente, “de forma cortês”, mas, como aponta Houaiss, adquiriu modernamente o significado de “por bajulação”.)

Em suma, o novo Acordo Ortográfico deixa à opção de quem escreve decidir se quer escrever “o Senhor Doutor” ou “o senhor doutor”; “isto é de vossa excelência” ou “isto é de Vossa Excelência”; “santa Filomena” ou “Santa Filomena”.

Em contextos não hierárquicos, reverenciais nem “áulicos”, porém, a norma ortográfica é reservar maiúsculas para os nomes próprios, e escrever, por exemplo, “o papa Francisco, a primeira-ministra Angela Merkel e a rainha”; “o reitor”; “a prefeita”; “o procurador-geral”; “a embaixadora”, “o presidente”, etc.