“Através” só se pode usar em sentido literal? O que de fato dizem as gramáticas:

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As melhores gramáticas da língua portuguesa usam “através de” como expressão perfeitamente sinônima de “por meio de“, tanto em sentido literal quanto figurado. Igualmente o fazem os melhores e mais clássicos autores portugueses e brasileiros.

Recentemente, porém, charlatães linguísticos começaram a espalhar a falsa lenda de que a palavra “através” só poderia ser usada em sentido literal. Mentira.

Como já vimos anteriormente, o que não falta na Internet são charlatães da língua, inventores de (falsos) erros de português. Um desses falsos erros que se acha fácil pela Internet é o de que a palavra “através” não poderia ser usada em sentido figurado. Em vez de obter algo “através” de uma ação, dizem os charlatães, o certo seria dizer que se obteve algo “por meio de” uma ação – ou “por intermédio de“, “mediante“, etc. Segundo a tal lenda, só se poderia usar “através” em sentido físico.

Se a tal lenda – que não tem nenhum embasamento gramatical, linguístico, etimológico ou histórico – fosse verdade, “através” seria a única palavra da língua portuguesa que não poderia ser usada em sentido figurado, apenas literal.

É uma invencionice, um falso erro (inventado). Todos os melhores autores e os melhores gramáticos do Brasil e de Portugal usam “através de” com o sentido figurado de “por meio de“, e sempre o fizeram.

Aurélio e Houaiss (e todos os demais dicionários) são inequívocos: “através (de)” é um sinônimo perfeito de “por meio (de)”, “por intermédio (de)” – e dão exemplos: “educar através de exemplos” (Houaiss); “Foi sempre o mesmo homem honesto, através de anos e anos” (Aurélio).

Os gramáticos de verdade (Evanildo Bechara, Celso Cunha, Celso Luft) não apenas nada dizem proibindo o uso da expressão, mas a usam repetidamente ao longo de suas gramáticas, exatamente do modo que a tal lenda urbana diz ser errado. Como se vê na célebre Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (2015), imortal da Academia Brasileira de Letras:

Pág. 71: “Em português, como em muitas outras línguas, nota-se uma tendência para evitar o hiato, através da ditongação ou da crase.

Pág. 77: “O sossego do vento ou o barulho ensurdecedor do mar ganham maior vivacidade através da aliteração, nos seguintes versos

Pág. 140: “surgem muitas dúvidas no uso do plural, além de alterações que se deram através da história da língua

Pág. 191: “O tipo “zero determinação” antes do substantivo seguido de “o mais” é menos enfático, e se valoriza através de uma inversão (o mais alto homem)”.

Pág. 457: “Grande é o número de radicais gregos que encontramos no vocabulário português. Muitos deles nos chegaram através do latim e são antiquíssimos.

 

Da mesma forma, na célebre Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra:

Pág. 18: “É só a partir do seculo IX que podemos atestar a sua existência através de palavras que se colhem em textos de latim bárbaro

Pág. 152: “No primeiro exemplo, o pronome está relacionado com o substantivo por meio da preposição ‘por’; no segundo, o substantivo relaciona-se com o adjetivo através da preposição ‘de’.”

Nem mesmo aquele tradicionalmente considerado o mais conservador gramático brasileiro do século passado, Napoleão Mendes de Almeida, condenava esse uso que algumas pessoas por ignorância pretendem proibir:

“Não se deve cair no exagero de julgar que a locução “através de” só é possível quando significa “de um lado para o outro”, “de lado a lado”. Não vemos erro em: “A palavra veio-nos através do francês”, como não vemos na passagem de Herculano: “Através desses lábios inocentes murmuram durante alguns instantes as orações submissas””  (Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de questões vernáculas, 1981, pág. 33)

Ou seja: não tem embasamento gramatical a falsa crença de que só se deva usar “através de” em sentidos físicos ou literais. Quem afirma isso está repercutindo mais uma “lenda urbana” sem fundamento.