Com negativas, use “nenhum”, não “qualquer”

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Já está repetitivo dizermos que, em bom português, se usam as duplas negativas: “Não cometi nenhum crime”; “Não veio ninguém”; “Não comi nada”. Mas, como a Folha de S.Paulo continua distorcendo a língua, substituindo as duplas negativas por “qualquer” (como se vê na foto acima), insistiremos no tema: “qualquer” não é sinônimo de nenhum.

A explicação original sobre o tema está disponível aqui (clicar). Voltamos a ele hoje, porém, sobretudo por um curioso detalhe: o de que o próprio Manual de Redação da Folha de S.Paulo condena veementemente o uso de “qualquer” em lugar de “nenhum”:

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Duplas negativas são corretas em português: “Não cometeu nenhum ilícito” é melhor do que “Não cometeu qualquer ilícito”

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Na gramática do português (assim como nas das demais línguas neolatinas), não há absolutamente nenhum inconveniente (nem nunca houve) em usar, numa mesma frase, mais de um marcador negativo. É corretíssimo, em português, dizer “Não veio ninguém“, “Não comi nada“.

Por confusão com a gramática da língua inglesa – língua em que dois negativos resultam num positivo -, muitos brasileiros cultos têm cometido hipercorreções, tentativas de “corrigir” o que já estava certo: por acharem que duplas (ou triplas) negativas são incorretas ou ambíguas, têm evitado formas corretíssimas e tradicionais portuguesas, como “Não vi ninguém”, “Não cometeu nenhum crime”, “Não recebeu nenhuma vantagem”, substituindo-as por traduções infelizes do inglês, como “Não vi qualquer pessoa“, “Não cometeu qualquer crime“, “Não recebeu qualquer vantagem ilícita“.

Evite essas hipercorreções, que não são nem mais corretas, nem mais elegantes do que as formas tradicionais portuguesas, em que os elementos que se seguem ao não também se apresentam na negativa: “Não cometeu nenhum crime”Não recebeu nenhuma vantagem ilícita”.