Regência do verbo “delegar”

Qual é afinal a regência verbal de delegar? O site português Ciberdúvidas afirma (mais de uma vez) que é incorreta a regência “delegar a”, e que o certo seria apenas “delegar em”, mas na vida toda só lembro de ter lido e ouvido “delegar” a reger a preposição “a”…

Pode ficar tranquila, cara consulente: sua intuição está certa, e as referidas respostas no tal site português é que estão erradas. Dicionários como o Houaiss e o Aurélio atestam, para o verbo delegar, a regência com a preposição “a”:

Dicionário Houaiss:
delegar
verbo ( 1391)
( t.d.bit. ) [prep.: a] realizar uma transmissão, concessão de (poderes)    ‹ em meio à crise, ele delegou todos os seus poderes (a uma comissão de emergência) ›

Dicionário Aurélio:
delegar
v.t.d.i. Transmitir poderes; investir na faculdade de obrar: O país delega ao Congresso a decisãoDelegou à comissão poderes especiais.

A regência com “a” é, aliás, a única registrada no primeiro dicionário de português da história – o de Bluteau, publicado em 1712:

Dicionário de Bluteau (1712): “Delegou o Sol sua luz à Lua.”

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De todos modos, embora seja claro que a regência “delegar algo a alguém”, a regência com a preposição “em” (“delegar algo em alguém” – possivelmente influenciada pelo espanhol, língua em que o verbo delegar sempre exige a preposição “en“) também é correta, tendo registra na língua portuguesa desde pelo menos a segunda edição do Dicionário de Moraes e Bluteau, de 1789.

É a regência que se encontra também na Gazeta de Lisboa, que em 1800 afirmava que Bonaparte agia “como se estivesse em Paris, não querendo delegar a outrem parte alguma de sua autoridade“.

Quem mais acerta, portanto, é o Dicionário Michaelis – o único a trazer ambas as regências do verbo: “A nação, pelo órgão dos seus representantes, delega em homens o poder executivoDelegara a chefia ao funcionário mais antigo“.

Diga (e escreva) que algo foi delegado em alguém ou a alguém, portanto – como quiser. Só não erre, supondo que quem usa a outra preposição incorre em erro.

 

O plural de siglas: um CD, dois CDs; uma ONG, duas ONGs…

Li num lugar que o certo é “comprei dois CD”, e não “dois CDs”, porque as siglas não têm plural em português. Isso está certo?”

Não, não está. Desconfie do que mais vier desse tal “lugar” que lhe diz que siglas não podem ter plural em português. Não existe nenhuma regra gramatical que impeça a pluralização de siglas em português.

Pelo contrário: a Academia Brasileira de Letras, o Dicionário Aurélio, o Houaiss, o Aulete (clique aqui), o Michaelis (aqui), a portuguesa Porto Editora (aqui) a própria Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) usam siglas no plural, acrescentando-lhes um “s” minúsculo: um CD, dois CDs; um DVD, dois DVDs; uma ONG, duas ONGs.

Os gramáticos Celso Luft, Napoleão Mendes de Almeida, Silveira Bueno e  Paschoal Cegalla são todos unânimes na questão:

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Também o professor Pasquale Cipro Neto assim afirma, em sua gramática:

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E o maior gramático da língua portuguesa hoje vivo, Evanildo Bechara, diz o mesmo:

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Mas atenção: o “s” deve ser sempre minúsculo; e é errado usar apóstrofo: o certo é “dois DVDs” (e não “dois DVD’s“).

Vide, por exemplo, o plural de CD no Dicionário Aurélio:

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Ou, aqui, o plural de uma sigla no Dicionário Houaiss (2016):

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Vide, também, o plural de DVD no Dicionário da Academia Brasileira de Letras:

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Já a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em sua mais recente declaração presidencial (a “Declaração de Díli”), assinada pelos presidentes de Brasil, Portugal e dos demais países lusófonos, oficializou a recomendação formal da “integração progressiva dos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VONs) num Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC)“.

A “teoria” de que siglas não têm plural é tão absurda que obrigaria a que, antes de usar uma sigla, o falante pensasse se a sigla ainda é uma sigla, escrita com maiúsculas, ou se já se escreve com minúsculas – uma vez que ninguém discute que, quando escrita com minúsculas, óvni (da sigla para Objeto Voador Não Identificado) vira, no plural, óvnis.

Em suma: se, mesmo com isso tudo, alguém ainda disser (sem nenhuma gramática, acordo ou convenção como embasamento) que é errado usar plurais em siglas, basta ignorar – ou recomendar-lhe que deixe de prender-se a regras “inventadas”, como essa, que só se encontra em sites na Internet – mas em nenhuma gramática ou dicionário, nem tem qualquer embasamento teórico, linguístico ou factual.

Pronomes átonos com infinitivos

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O certo é “Sem se privar de nada” ou “sem privar-se de nada“? Tanto faz. Com verbos no infinitivo, é permitida tanto a próclise quanto a ênclise.

Um leitor pede-nos comentar texto, que acaba de ser publicado em outro site, em que uma professora portuguesa afirma que estaria gramaticalmente incorreto o subtítulo do livro acima – “Como emagrecer sem privar-se de nada“. Segundo a professora, misterioras regras gramaticais obrigariam a próclise, e não a ênclise, nesse caso: “sem se privar de nada” é a forma correta, diz ela.

Mas a professora está errada. Como se ensina em qualquer boa gramática, com verbos no infinitivo, sempre se pode usar tanto a próclise quanto a ênclise. Fica ao gosto do falante.

Como ensinaram o gramático português Lindley Cintra e o brasileiro Celso Cunha, em sua Gramática – a mais vendida tanto de um lado quanto de outro do Atlântico:

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É a mesma lição que se lê em todas as boas gramáticas da língua portuguesa – como a Gramática Metódica da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida:

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…A Gramática Normativa da Língua Portuguesa, de Rocha Lima:

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… e a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara.

Não dê ouvidos a quem diz o contrário, portanto: com infinitivos, vale a próclise ou a ênclise, ao gosto do falante. É correto, portanto, dizer (e escrever) tanto “para a ver feliz” quanto “para vê-la feliz”; “por medo de o magoar” ou “por medo de magoá-lo“; “Ela começou a falar-lhe”, “Ela lhe começou a falar” ou “Ela começou a lhe falar”; etc.

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