Palavras e sentidos que só existem nos dicionários

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Não queremos aqui falar mal dos dicionários brasileiros e portugueses (pelo contrário: discordando frontalmente de outros sites e blogues, que vivem a reclamar de supostas deficiências de nossos léxicos, já publicamos textos inteiros dedicados exclusivamente a mostrar que a língua portuguesa vai muito bem de dicionários – vai muito melhor, aliás, que línguas próximas, como o espanhol e o francês, como já apontamos aqui).

Mas hoje falaremos, sim, de um problema frequente de nossos dicionários: o fato de, por copiarem acriticamente uns as edições anteriores dos outros, acabarem por perpetuar palavras ou sentidos “falsos” – palavras e sentidos que simplesmente não existem em lugar nenhum, exceto nos dicionários.

analisamos esse fato quando criticamos o Priberam por escolher, como “palavra do dia” no Dia da Mentira deste ano, a “palavra” gazopa, que, segundo o Priberam, significaria “mentira”… no Brasil.

O problema? “No Brasil”, não se sabe o que é gazopa. Se se usou algum dia em algum registro de alguma localidade específica, o fato é que não se usa hoje em canto nenhum, nunca se usou nacionalmente ou sequer regionalmente – e, como a Internet pode ajudar a verificar, definitivamente não se usa hoje (nem se usou desde o advento da Internet).

A história da mentira que é a própria existência da palavra “gazopa” é peculiar, mas, infelizmente, longe de ser a única do tipo. Após ter ido atrás da origem desse literal embuste, consegui traçá-la até sua origem: um levantamento, publicado em 1945, de gírias faladas no Rio de Janeiro naquele ano.

O problema é que, no campo das gírias, há aquelas que perduram e entram de fato para a língua; e aquelas que, no verão seguinte, já morreram. Esse parece ter sido o caso das infelizes gazopas.

Mas como os dicionários quase nunca eliminam palavras nem se dão ao trabalho de revisar criticamente o seu conteúdo antigo antes de cada reedição, “mentiras” como essa se perpetuam, e essa infeliz gíria, mesmo não tendo vivido mais que provavelmente poucos verões, e em contexto extremamente limitado, nos aparece em pleno 2016 como, segundo o dicionário de português mais acessado da Internet (e sem qualquer marcação de “regionalismo” ou “desusado”), palavra brasileira para “mentira”- quando definitivamente não o é.

Recordamos hoje esse caso por ser quase idêntico ao da palavra do dia da Priberam de hoje – goteira. Mais especificamente, ao caso do último significado que nos dá o Priberam: “(Brasil) Perturbação mental“.

Não é difícil verifica a (im)procedência dessa informação: pergunte-se a brasileiros, de diferentes idades e das cinco regiões do Brasil, o que entendem da frase “Fulano está com goteira“. Ninguém responderá entender se tratar de “perturbação mental”. Serve também consultar o DicionárioInformal, que não costuma deixar de fora nem uma única palavra ou sentido que sejam hoje usuais no português do Brasil – mas que ignora esse suposto sentido de goteira.

Serviria, ainda, jogar a palavra na busca do Twitter, ou em buscas controladas no Google ou no Google Books. Por mais que se controlem períodos e outras variáveis em pesquisas no Google e em diferentes córpus da língua, não se encontra nem uma única ocorrência de “goteira” com esse sentido… exceto em dicionários.

É possível mesmo traçar o caminho até a origem desse falso significado de “goteira”: o Priberam claramente copiou o verbete, com todas as definições, do Houaiss, que por sua vez copiara esse último sentido da primeira edição brasileira do Dicionário Aulete, publicada em 1958.

Após três edições anteriores feitas em Portugal, e querendo conquistar no Brasil o mesmo sucesso que tinha em Portugal, o dicionário Caldas Aulete se propunha a trazer inúmeros “verbetes e significados próprios do Brasil”. E, para tal, saiu o dicionarista responsável pelo “abrasileiramento” do Aulete atrás de todas as gírias brasileiras de que encontrou registro – o que incluiu uma lista de “brasileirismos” feita por Affonso de Taunay em 1914.

Ou seja: em algum momento 100 anos atrás, a palavra “goteira”  (na verdade “goteiras”, segundo Taunay) de fato terá tido uso com o significado de “perturbação mental”. Mas um dicionário português a ensinar-nos que “goteira”, aqui “no Brasil”, tem o sentido de “perturbação mental”, hoje?

E, mesmo que a ideia fosse ser o mais completo possível, registrando até mesmo gírias de uma única cidade e já desusadas, há outros sentidos muito mais usuais de “goteira” que estão de fora do Priberam (e do Houaiss) – como, por exemplo, o de “pessoa que entra num recinto maçônico, sem pertencer à maçonaria“, registrado pelo Aurélio e pelo novo Michaelis. Ou, ainda, o significado popular de gota como sinônimo de epilepsia – que poderá ter sido, afinal, a motivação para alguém algum dia ter usado a derivada “goteira” como um problema mental.

image20-20cc3b3pia-thumb-600x813-9099Uma merecida ressalva quanto à cópia acrítica que fazem entre si quase todos os principais dicionários deve ser feita ao Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba (2002). Foi o primeiro dicionário brasileiro feito com base num córpus científico – isto é, cada uma das palavras constantes do Dicionário só foi acolhida após ter sido verificado seu uso real, tanto em textos atuais quanto antigos. E, por isso, não surpreende que, diferentemente dos demais, o Dicionário de usos do português do Brasil não traga nada parecido com “perturbação mental” entre os significados da palavra “goteira”.

Conta corrente não tem hífen

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Conta corrente ou conta-corrente? Com ou sem hífen?

Uma “conta em banco, de depósitos à vista”, é uma conta corrente, sem hífen mesmo – como ensinam o Dicionário Aurélio, o Dicionário Aulete, Celso Luft e o Dicionário da Academia Brasileira de Letras, além do próprio Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) – que ensina que c/c é a abreviatura de “conta corrente”.

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É, ainda, a forma usada por toda a imprensa (vide o Estadão, O Globo, o Valor, a Veja, a Folha, etc.) e, o mais importante, por todos os bancos no Brasil: o Banco do Brasil, a Caixa, o Santander, etc.

Novamente (como no caso de broxar), a atual edição do Houaiss fica sozinha, e erra sozinha: destoando do Aurélio e dos demais, Houaiss grafa “conta-corrente” com hífen – “uma bobagem do Houaiss“, diz o Professor  Lutibergue, “um lapso do Houaiss“, diz a Professora Maria Tereza Piacentini; um erro, dizemos nós.

A maior ironia é que o próprio acadêmico e filólogo Antônio Houaiss mandava escrever “conta corrente” sem hífen: no dicionário enciclopédico organizado ainda em vida (o Dicionário Enciclopédico Koogan-Larousse), Houaiss é taxativo: Conta corrente, sem hífen, é a “conta aberta em banco” (ver abaixo). O erro, portanto, não é de Antônio Houaiss, brilhante filólogo; mas sim da equipe que atualiza o dicionário que leva o nome do acadêmico, infelizmente falecido anos antes da conclusão e publicação do primeiro Dicionário Houaiss.

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De todos modos, o erro da equipe do Dicionário Houaiss certamente vem de uma “compreensão” equivocada do VOLP, o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras. O VOLP traz “conta-corrente”, com hífen – mas o problema é que a palavra “conta-corrente” até existe, e por isso o VOLP a registra; mas, como o VOLP não traz significados, é preciso saber que “conta-corrente” é uma coisa, mas a conta em banco, que é a conta corrente, sem hífen, é outra.

Se, por exemplo, pesquisar por livre-comércio no VOLP, encontrará a palavra assim, com hífen – mas só se for a um bom dicionário, descobrirá que “livre-comércio” é a teoria que estuda o livre comércio (sem hífen!).

Da mesma forma, o VOLP traz “bom-dia”, e um desavisado poderia achar que isso significa que “bom-dia” sempre tem hífen. Mas um bom dicionário explica que “um bom-dia” é o nome do cumprimento usado por uma pessoa que diz “Bom dia” (sem hífen).

Assim, o VOLP registra “conta-corrente” com hífen, mas precisa-se recorrer a um bom dicionário como o Aurélio para entender que contas-correntes são os “livros onde se escrituram as contas correntes dum estabelecimento comercial”:

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Para não restar dúvida, basta ver que o próprio VOLP da Academia traz, após a lista de palavras, a lista de abreviaturas, onde ensina que c/c é a abreviatura de “conta corrente” (sem hífen). E, mais: o Dicionário da Academia Brasileira de Letras também ensina corretamente:

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Pacenhos e pacenhas: habitantes de La Paz

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Por falar em Bolívia: vários dicionários registram a palavra pacenho, tradução do espanhol paceño. O que quer dizer pacenho? Como mostram o Aulete e o Priberam, é o adjetivo e o substantivo referentes à cidade de La Paz, na Bolívia:

(pa.ce.nho)
sm. 1. Indivíduo nascido ou que vive em La Paz, capital da Bolívia (América do Sul).
a. 2. De La Paz; típico dessa cidade ou de seu povo.
[F.: Do espn. paceño.]
Disponível em: http://www.aulete.com.br/pacenho

Há, porém, um pequeno erro na definição – percebem-no? Os pacenhos são, sim, os habitantes de La Paz – mas, ao contrário do senso comum, a cidade de La Paz não é, oficialmente, capital da Bolívia. De acordo com a Constituição boliviana, a capital do país é a cidade de Sucre – embora La Paz seja, de fato, a sede do governo.

Em português, o gentílico pacenho pode referir-se, ainda, a “qualquer localidade chamada Paço ou Paços, como Paços de Ferreira, cidade portuguesa” – como bem ensina o Priberam.

“Avódrasta”? Não, só pode ser “avodrasta”, sem acento

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Um neologismo bacana, para se referir à mãe da madrasta: “avodrasta”. Mas a palavra não pode ter acento, é claro. É o mesmo caso de “avozinha”, diminutivo de “avó”: é claro que a sílaba “vo” é pronunciada “vó”, e não “vô”, mas isso não é motivo para acentuá-la: não se coloca acento em toda vogal aberta (senão, escreveríamos colóca, abérta); acentu1a-se, sim, para identificar a sílaba tônica, e apenas nas palavras cuja sílaba tônica precisa ser marcada (todas as proparoxítonas e, em geral, as oxítonas).

O erro bem na capa do portal da Porto Editora é um exemplo mais dos numerosos problemas de ortografia da “Infopédia”, portal da Porto Editora, que reúne seus dicionários em formato digital. Outrora considerada dona do melhor dicionário de português de Portugal, a Porto tem, como já escrevemos em outras oportunidades, sofrido “com invencionices e absurdos sem fontes, que revelam a completa ignorância de regras básicas de ortografia portuguesa de parte da amadora” equipe da Infopédia.

Assim como o fato de terem declarado “selfie” uma palavra aportuguesada sem sequer colocarem-lhe o acento que tão facilmente a aportuguesaria (e o mesmo vale para pádel, que para virar português precisou de um simples acento, mas o qual a Porto achou desnecessário – e isso para ficarmos apenas em dois exemplos relacionados a publicações desta semana), alguém pareceu não ter ideia de por que a palavra “avodrasta” jamais poderia ter acento no “ó”. Claro que pode ter sido um simples lapso – todos os cometemos, afinal. O problema maior é que cada vez mais se nos confirma o temor de que a equipe que está a cuidar do conteúdo digital da obra não tenha o conhecimento técnico e linguístico dos heróis que elaboraram as anteriores versões em papel dos dicionários que haviam feito a Porto famosa em toda a lusofonia.