Esqueite

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Para não falarem que só assisto à Globo: no programa “Roda a Roda”, Silvio Santos propõe à jogadora adivinhar duas palavras com oito letras, terminadas em “-te”, referentes a objetos com rodinhas. A jogadora não se fez de rogada e acertou: patinete e… esqueite.

 

Há quem ainda estranhe a forma aportuguesada, simplesmente por não estar acostumada a vê-la escrita. Não há, porém, razão para preferir a forma inglesa skate ao aportuguesamento, registrado no Dicionário Aurélio, no Houaiss, no Bechara e que, mais de meio século atrás, já era o nome da primeira revista brasileira dedicada a esqueitistas.

A palavra, ademais, está aportuguesada à perfeição: não é da índole da língua portuguesa aceitar palavras começadas por “s” seguida de consoante (chamada “s impura” no italiano, por exemplo, onde ocorre).

Em português, como em espanhol, palavras que teriam a “s” impura acabam ganhando um “e” antes do “s” na escrita, mesmo que não seja pronunciado: do mesmo modo que o inglês tem specialspiritual, studiostatist, stagnate – que, em português, se escrevem especial, espiritual, estúdio, estatista, estagnar, e assim como o italiano sdrucciolo nos deu esdrúxulo e o francês scandinave  nos deu escandinavo, etc., neologismos como snob, stress, stock, scanner e ski só poderiam ser aportuguesados com um “e” inicial – e assim o foram: esnobeestresse, estoque, escâner, esqui – que já geraram inclusive derivados: esnobar, estressar, estocar, escanearesquiar – e até esquibunda, o esporte praticado em dunas nas praias brasileiras, já dicionarizado por Sacconi.

Por ignorância da história da língua, certos dicionários portugueses têm repudiado esses neologismos iniciados por “e”, por considerarem que deturpam a pronúncia da palavra estrangeira. Pura ignorância: a pronúncia de uma palavra vem antes da grafia, que é apenas uma convenção e que só tem utilidade se for padronizada. Assim, por exemplo, a maioria dos cariocas ignora o “e” inicial de “estresse”, e pronuncia “stresse” – enquanto a maioria dos paulistanos ignora o “e” final adicionado, também por convenção, à palavra, e continuam pronunciando “stress“, como pronunciavam antes do aportuguesamento. Da mesma forma, “esnobe” pode (e em geral é) pronunciada exatamente como “snob” – independentemente da pronúncia, porém, convém que a escrita seja uniforme, e conforme às tradições da língua, que obrigam que uma palavra como scanner vire escâner.

Outros aportuguesamentos já acolhidos por dicionaristas brasileiros como Aurélio, Houaiss, Luft e Paschoal Cegalla, mas ainda ausentes dos dicionários portugueses, são estande (em um evento, por exemplo), eslaide (com fotos ou de uma apresentação no computador), estente (no coração) e esprei (de pimenta, de própolis, para pintar cabelo, grafitar muros, etc.).

Outras formas que se veem na Internet mas que, ao contrário dessas acima, ainda não foram nem devem ser dicionarizadas em breve por serem muito recentes – mas que em nada surpreenderão se um dia o forem, por serem aportuguesamentos perfeitos de termos em inglês que não têm equivalente perfeito em português – são estríper (e estriptise) e o verbo estalquear (também no DicionarioInformal). Daqui a uns 15 anos, voltemos a este tópico para ver a quantas andam estas três.