Evacuar lugares ou evacuar pessoas? Um falso erro de português

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Num vídeo, uma professora portuguesa ensina aos ouvintes que são “erradas” frases como “A população foi evacuada“; “Milhares de moradores foram evacuados“. Segundo ela, só se podem evacuar lugares, não pessoas.

Os estilos são os mesmos, só mudam os erros inventados: se, no Brasil, inventam que é erro o uso de “através” em sentido literal (que nenhum português jamais considerou erro), em Portugal uma dessas modernas lendas urbanas da gramática seria a de que o verbo evacuar só pode ter como complemento lugares, nunca pessoas. A semelhança com os falsos erros daqui? A ausência de qualquer justificativa ou embasamento para o tal “erro”.

Isso porque nenhum dicionário ou gramática corrobora essa teoria furada de que só se evacuam lugares, nunca pessoas. Pelo contrário: já em suas primeiras edições, o Dicionário de Moraes (o primeiro dicionário da língua portuguesa) trazia, nos exemplos do verbo “evacuar”, tanto “A polícia evacuou o teatro” quanto “Jesus evacuou o diabo“.

Dicionário Houaiss também traz exemplos das duas construções: “A polícia ordenou que evacuassem a penitenciária” e “As autoridades evacuaram a população“. Em 1950, na edição do Dicionário Aulete feita em Portugal pelo gramático Vasco Botelho do Amaral, vinha o exemplo: “evacuar tropastransferi-las de um para outro lugar“. No Michaelis, lê-se: “Os soldados evacuaram os moradores devido às ameaças de desabamento“.

E na portuguesíssima Porto Editora, veem-se lado a lado os exemplos evacuar os refugiados” e “evacuar a sala.

Em português, portanto, é possível evacuar lugares (esvaziá-los) ou evacuar pessoas (removê-las). Assim é a língua, há pelo menos alguns séculos.