Quem nasce em tal cidade se chama como?

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O nome que se dá ao cidadão de uma cidade é gentílico (por exemplo: quem nasce no Rio de Janeiro é carioca; logo, o gentílico da cidade do Rio de Janeiro é carioca). Não existe atualmente uma fonte atualizada e confiável que reúna os gentílicos das cidades brasileiras. Todos os bons dicionários brasileiros – Houaiss, Aurélio, Michaelis, Aulete – são repletos de lacunas e erros nessa área. A Wikipédia lusófona, nessa área (como em quase todas as outras), é pura piada (segundo a qual, com base em fonte nenhuma, os gentílicos de Massaranduba e de Pirassununga se escreveriam com “ç”). Em resumo, não existe publicação oficial confiável que mantenha esses dados atualizados.

Por essa razão, foi criada, nas publicações fixas da página, a seção de Gentílicos brasileiros, que será permanentemente atualizada, e que visa a, num futuro, reunir todos os gentílicos do Brasil – devidamente conferidos e confirmados.

A ideia é manter uma lista completa e confiável dos gentílicos oficiais atuais de cidades brasileiras, rigorosamente conferidos, um a um, quanto ao seu uso real pelos governos municipal e estadual, pela população e pelos meios de comunicação locais, bem como por sua correção e presença em obras de referência.

A lista inicial, ainda bastante incompleta, pode ser acessada aqui. Se a sua cidade não aparece nessa lista, sinta-se convidado a enviar o nome de sua cidade e o respectivo gentílico como comentário, ao fim da página.

Os gentílicos das ilhas de Cabo Verde

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Um leitor cabo-verdiano pergunta qual a grafia correta, em português, da denominação oficial dos cidadãos ou naturais de cada uma das ilhas da República de Cabo Verde, país africano cuja língua oficial é o português (embora quase toda a população o fale como segunda língua, não materna) e cujo território é um disperso arquipélago (conjunto de ilhas). O nome que se dá ao natural ou cidadão de uma determinada localidade é gentílico (o gentílico da cidade de São Paulo, por exemplo, é paulistano; e o do estado de São Paulo, paulista).  Em resposta, portanto, ao pedido de nosso leitor cabo-verdiano, segue a lista das nove ilhas habitadas de Cabo Verde:

Ilha Brava – bravense

Ilha do Fogo – foguense

Ilha do Maio – maiense

Ilha de Santiago – santiaguense

Ilha de Santo Antão – santantonense

Ilha de São Vicente – são-vicentino

Ilha de São Nicolau – são-nicolauense

Ilha do Sal – salense

Ilha de Boavista (ou Boa Vista) – boavistense

“Malawi” é português, sim

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Um leitor se espantou ao ver, em bons veículos de imprensa, notícias em português sobre a República do “Malawi”. A pergunta é: os nomes de países não têm de ser traduzido para o português?  E, se sim, como se deveria escrever – e pronunciar – em português o nome do Malawi? “Maláui”? “Malauí”? “Malávi”?

Em publicações anteriores, tratamos do Malawi, país africano com enorme fronteira com Moçambique. Fizemos uma análise da fonética da língua de origem do nome “Malawi”, o nianja, para explicar por que a pronúncia em português deve ser “Maláui” (e não Malauí ou Malavi ou Malaui, como às vezes se via em alguns dicionários de português).

Quanto à pronúncia, portanto, a resposta é clara: “Maláui”.

E, quanto à escrita? Também nesse caso a resposta é clara – embora vá certamente desagradar aos puristas da língua. O novo Acordo Ortográfico não podia ser mais explícito; em seu parágrafo segundo, determina:

2º) As letras k, w e y usam-se: […] Em topônimos [nomes geográficos] originários de outras línguas e em seus derivados: Kwanza; Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano.

De acordo, portanto, com o texto legal que desde janeiro de 2016 regulamenta o uso oficial da língua portuguesa, deve usar-se, em português, a forma original estrangeira Malawi, e o respectivo adjetivo/substantivo malawiano. É essa a forma que já usam bons dicionários atualizados após o Acordo Ortográfico, como o Houaiss, o Universal, o Priberam e os da Porto Editora.

“Malawi” e “malawiano” são, ademais – e mais importante – as formas usadas, desde sempre, nos países africanos de língua portuguesa, como Moçambique e Angola, que, no fim das contas, escrevem diariamente muitíssimo mais sobre o Malawi do que brasileiros e portugueses.

Essa foi mais uma das grandes mudanças trazidas pelo novo Acordo Ortográfico. No sistema ortográfico anteriormente vigente, as letras “k”, “w” e “y” não faziam parte da língua portuguesa, e recomendava-se que mesmo os derivados de topônimos estrangeiros fossem “aportuguesados”, com a substituição dessas referidas letras; por essa razão, escrevia-se no Brasil, por exemplo, taiuanêsquiribatiano – que já foram substituídas, nos dicionários atualizados após o Acordo Ortográfico, por taiwanêskiribatiano.

 

“Malasiano”? Não, obrigado – já temos malaio e malásio

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Na Folha de S.Paulo de hoje, “Possível destroço de avião malasiano desaparecido é achado“. Para além da péssima justaposição de “desaparecido é achado” (a palavra “desaparecido”, aliás, é desnecessária na manchete), por que “malasiano”?

Resposta: porque quase todas as notícias internacionais da imprensa brasileira são meras traduções (ruins) de notícias em inglês – e em inglês se diz emprega o adjetivo “Malaysian” para aqueles que em português sempre foram os malaios, ou, mais recentemente, malásios.

O neologismo malásio é aceito: diferentemente da “malasiano” da Folha, malásio está no Dicionário Houaiss, no Aurélio, no Michaelis, no Priberam e no dicionário da Porto Editora; sua criação se deveu à necessidade moderna de distinguir o adjetivo pátrio relativo ao país e a todos os seus cidadãos da denominação tradicional “malaio”, em geral associada a uma etnia específica: a etnia predominante no país.

Essa necessidade moderna de diferenciação é o que levou a criação, entre outros, dos bons neologismos somaliano (para diferenciar o adjetivo pátrio, quando necessário, da forma tradicional somali, nome da língua e da etnia de quase todos os somalianos); cazaquistanês (que muitos usam em contraste com cazaque), uzbequistanês (que pode ser usada em contraste com usbeque), sri-lankês (para marcar a diferença com cingalês), etc.

Mas, se já temos dois gentílicos para a Malásia – malaio malásio -, a invencionice “malasiano” definitivamente não nos falta. É erro de português mesmo.

Quem nasce em Macau é macaense

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Quem nasce em Macau é o quê? Macau, como se sabe, é uma região administrativa da China, antiga colônia portuguesa, onde o português é língua oficial. Mas quem nasce em Macau é chamado como? Qual o gentílico de Macau?

Numa resposta rápida, o gentílico de Macau é macaense – única forma usada pelos próprios macaenses e pelo governo macaense (ver exemplos abaixo).

Uma consulta a muitos dicionários, porém, não responderia isso: a maioria dos dicionários traz, com o mesmo destaque (ou às vezes até mais) que a macaense, os “sinônimos” macaísta, macauenho, macauês, macauense; nenhuma dessas formas, porém, tem uso de fato.

Erram, nesse ponto, os dicionários: colocar essas opções todas como sinônimas seria o mesmo que colocar num dicionário que o gentílico referente ao Brasil pode ser indistintamente “brasiliano”, “brasilês”, “brasílico”, “brasilíada”, “brasílio”, “brasil”, “brasilense” ou “brasiliense” – sim, originalmente, “brasiliense” referia-se a todo o país – e, a rigor, ainda pode ser usado nesse sentido, mas todo brasileiro sabe que brasiliense, hoje, é usado quase exclusivamente apenas como gentílico de Brasília, a capital do país.

Como se pode ver, a língua portuguesa é riquíssima em sufixos que podem formar gentílicos, sendo exemplos: –ense (singapurense), –ês (neozelandês), –ano (moçambicano), –ão (afegão), –enho (panamenho), –ino (argentino), –ita (iemenita), -o (turco, líbio), –ol (mongol), –ota (cipriota), além de empréstimos como a terminação árabe -i (omani, somali, saarauí).

Assim, é comum que a um mesmo topônimo correspondam múltiplas formas gentílicas dicionarizadas – Houaiss, por exemplo, registra, como formas possíveis para o Vietnã “vietnamense”, “vietnamês”, “vietnamiano” e “vietnamita” – mas é esta última a única de uso efetivamente corrente em português. A abundância de formas atestadas em vocabulários e dicionários não implica haver o mesmo número de formas em uso prático e corrente.

Em regra, independentemente dos registros, uma única forma acaba por consolidar-se no uso geral da língua – como, em outro exemplo, acabou por ocorrer com “brasileiro”, que substituiu as demais opções acima listadas; ou com “português”, que substituiu variantes como portucalense; ou com “angolano”, em detrimento da hoje obsoleta “angolense”, ou “guineense” em lugar de “guinéu”, etc.

Da mesma forma, resulta no mínimo enganoso ensinar (como ensinam alguns livros, dicionários e gramáticas) que macaísta é gentílico de Macau – uma vez que, na prática, essa forma não é usada (sobretudo não em Macau). O gentílico consagrado referente a Macau, na China, é macaense (sem o “u”), forma invariável no feminino; e é a única forma usada (em português, é claro) pelo próprio governo macaense (como se pode ver aqui,  aqui, aqui, aqui ou aqui).