Jogos paralímpicos ou paraolímpicos? Paralimpíadas ou paraolimpíadas?

bbd07eaabe9daca824fb0aef461f1ae9

Oficialmente, os jogos se chamam “Jogos Paralímpicos“. Mas a Folha de S.Paulo diz que vai insistir em “paraolímpico”, por considerar essa forma mais correta. Se a ideia é “corrigir” nomes próprios, a Folha deveria passar a grafar “Têmer” – ou poderia começar corrigindo o erro de pontuação no nome oficial do próprio jornal.

E mesmo que a ideia fosse “corrigir” nomes próprios, a “lógica” linguística da Folha está errada: paralímpicos” não surgiu do prefixo latino “para-” + “olímpico“, como chutam, sem verificar a etimologia da palavra. O nome na verdade veio da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, quando se criam palavras por esse processo de amálgama (como portunhol, estagflação ou informática), a regra é justamente que a segunda palavra unida perca seu início.

Por fim, o professor Pasquale argumenta (como se isso argumento fosse) que o Dicionário Houaiss não traz as grafias paralímpico paralimpíada. Alguém precisa urgentemente dar um Houaiss atualizado para o professor:

img_2767


Em artigo hoje, a Folha de S.Paulo (a mesma que ainda escreve tríplex Cingapura) tenta justificar por que é dos únicos jornais que insistem nas grafias “paraolimpíadas”/ “paraolímpicos”, com “o“, mesmo após a padronização internacional das formas sem “o” (paralympics em inglês, paralimpíadas em espanhol, jeux paralympiques em francês, jogos paralímpicos nos demais países lusófonos, etc.). Primeiramente, o Pasquale tenta usar um argumento de autoridade: diz que “os cânones da língua” recomendam a forma paraolimpíada. Mentira.

É mentira rasteira, pois de difícil verificação – afinal, quem seriam os tais cânones da língua? -, mas mentira completa: nenhum daqueles que, sob qualquer ponto de vista, são considerados os “cânones” da língua jamais abordaram a questão das palavras paralimpíadas e paraolimpíadas. E nem poderiam: até poucos anos atrás, nem umas nem outras – nem as formas com “o”, nem sem “o” – existiam em nenhum dicionário de português.

Ao invocar os “cânones” da língua, o Pasquale faz supor que a forma “paraolímpicos” remontaria a Camões – mas a verdade é que nenhuma gramática jamais tratou desses neologismos. Nenhuma boa gramática do século passado ou deste – de Celso Cunha, Bechara e Rocha Lima a Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida ou Celso Luft – jamais defendeu uma forma ou outra. Nossos dois maiores dicionaristas, Aurélio e Houaiss, morreram sem que nenhuma dessas palavras (nem paralímpico, nem paraolímpico) ainda tivessem estreado em qualquer dicionário da língua portuguesa. A primeira aparição de paraolímpico em dicionários de português deu-se já neste século, em 2001. E a primeira aparição de paralímpico em dicionários foi em 2009, segundo o Houaiss.

Erra também ao afirmar que a letra “o”, de olímpico, nunca poderia ser suprimida em uma composição vocabular. Quem afirma isso parece desconhecer os outros processos existentes de criação de palavras em português – como o de amálgama, que levou à criação de palavras como “portunhol”, “estagflação”, “internauta” e mesmo “informática” (criada de “infor[mação] [auto]mática”) – em que, em regra, se une o início de uma palavra ao fim de outra.

E o fato é que a palavra inglesa “paralympic” não veio do prefixo latino “para-” + “olímpico”, mas sim da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, nesse processo de formação vocabular, a regra justamente é que a segunda palavra perca seu começo ao entrar na composição.

Tudo isso posto, o fato de se tratar de nome próprio deveria ser suficiente para a Folha entender por que ficou praticamente sozinha nessa posição tão boba: é como se o jornal passasse a escrever Têmer, com acento, para “corrigir” a grafia do nome do novo mandatário brasileiro. Por coerência, deveriam corrigir também os nomes de todos os jogadores de futebol; e mesmo siglas que não se pronunciam como se escrevem, como “Mercosul”.

Irônico é que a correção do nome próprio dos jogos, uma marca registrada, venha justamente de um jornal cujo nome oficial – “Folha de S.Paulo” – atenta contra regras do bom português ao “engolir” o espaço que seria obrigatório entre “S.” e “Paulo“.

Por fim, se a argumentação de alguém para definir se uma palavra existe ou não na língua se resume à presença ou não da palavra em dicionários, esse alguém deveria pelo menos adquirir dicionários atualizados nesta última década – pois fica feio rematar um artigo com a afirmação de que o Dicionário Houaiss sequer aceitaria as grafias paralimpíada e paralímpico, quando, na verdade:

img_2767

Há, por fim, aqueles que argumentam que a palavra paralímpico (ou qualquer outra palavra) não existe porque não está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP). Para estes, recomendamos este artigo, com link onde se pode ouvir da boca do próprio presidente da Academia Brasileira de Letras que a Academia é uma ONG, sem caráter oficial, e que seu VOLP não tem valor legal ou oficial; e que o vocabulário de fato oficial é o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, ainda em elaboração – mas que já traz a palavra paralímpico.