“Maláui”, escrito sem acento no Houaiss: mesmo os melhores dicionários erram

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Já vamos para nossa terceira publicação em poucos dias sobre o nome da africana República do Malawi. Na publicação anterior, enfatizando por que o aportuguesamento do nome, “Maláui”, precisa de acento para ser assim pronunciada em português (sob o risco de, do contrário, estar-se indicando a equivocada pronúncia Malaúi), um leitor contesta: “O dicionário Houaiss registra Malaui sem acento“.

O leitor está certo: no Houaiss há, de fato, esse erro. Felizmente, o Aurélio, o Aulete (disponível on-line aqui), os dicionários de Celso Luft (saudoso mestre da ortografia portuguesa), o Sacconi, etc., trazem Maláui corretamente, com acento, exatamente como o fazem os dicionários portugueses, como o Priberam.

A presença no Houaiss dessa grafia errada, “Malaui”, tem uma simples razão: o Houaiss, como todo grande dicionário, tem erros – muitos erros. Basta ver, para citar alguns específicos da edição a que o consulente alude (a de 2009): “gandhismo” é ali definido como algo referente a “Ghandi“; Alca, como uma organização internacional “criada em 1994” (como se sabe, a Alca nunca chegou a ser criada); joinvilense seria o gentílico de uma tal Joinvile, cidade que ficaria no mesmo estado de uma “Lajes” com “j”; a equipe do Houaiss faz confusão e mistura “broxa” com “brocha” (na contramão, como já mostramos aqui, de toda a história da língua e de todos os demais dicionários, inclusive o da Academia Brasileira de Letras); incluíram como portuguesa a forma pachto, embora, se tivessem ido ao excelente Dicionário Inglês-Português publicado em vida pelo próprio Houaiss, teriam visto que em português a língua se chama, há séculos, pastó; e ainda definem a tal língua como a falada num inexistente “Emirado Islâmico do Afeganistão”.

Nenhum dos vários lapsos do dicionário – e há dúzias de outros – afeta, porém, os méritos do Houaiss, que é de longe o maior dicionário contemporâneo da língua portuguesa e se diferencia de todos os concorrentes pela qualidade das definições, quase enciclopédicas.

Mas mesmo os excelentes dicionários Houaiss só fazem confirmar a velha máxima segundo a qual “dicionários são como relógios”: mesmo o pior deles é melhor do que nenhum; mas mesmo o melhor deles não é nem nunca será perfeitamente exato.

Malawi em português: Maláui, Malaui, Malauí, Malavi ou Malávi?

malawiregion1Poucos países sofriam de tanta indefinição quanto ao seu nome em português quanto o Malawi, país africano vizinho de Moçambique. Como deve, afinal, ser pronunciado (e escrito) em português o seu nome? “Maláui”? “Malaui”? “Malauí”? “Malávi”? “Malavi”?

Quanto à escrita, a resposta é simples: o novo Acordo Ortográfico, em seu parágrafo 2º, determina explicitamente que “As letras k, w e y usam-se: Em topônimos originários de outras línguas e em seus derivados: Kwanza; Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano.

De acordo com a ortografia oficial atual, portanto, usa-se em português a forma original Malawi.

E a pronúncia de Malawi é Maláui – tanto em português quanto na única língua oficial do país, que é o inglês.

Além do inglês, são faladas no Malawi diversas línguas africanas – a mais falada das quais é o nianja (língua a cujo nome em português já dedicamos uma publicação aqui). Em nianja, lá chamado Chicheŵa (com um w com acento circunflexo, sobre o qual voltaremos a falar), cada sílaba de cada palavra é ou tônica ou átona (“não tônica”). Diferentemente do  que ocorre em português, não há em nianja relação entre as sílabas de uma mesma palavra: uma palavra inteira pode ter apenas sílabas não tônicas, ou pode ter duas ou mais sílabas tônicas.

As palavras malo (lugar), madzi (água), galu (cachorro) e nyanja (lago), por exemplo, têm, cada uma, uma única sílaba tônica – a última (por essa razão, podem ser escritas, apenas para marcação da sílaba tônica, malómadzí, galú nyanjá). Também no nome da língua Chicheŵa a sílaba tônica é a última (Chicheŵá).

Já nas palavras “peixe” (nsómba ou, mais comumente, nsomba – como dito, os acentos em geral não são escritos), “família” (bánja), “problema”(vúto) e “chefe” (mfúmu), a única sílaba acentuada é a penúltima. E há também palavras proparoxítonas (ou esdrúxulas), como cálata, que quer dizer carta; mákina (máquina); e mbátata (batata).

A grande diferença em relação ao português é que, em nianja, pode haver palavras com mais de uma sílaba tônica – como Lólémba (segunda-feira), com duas sílabas tônicas, ou wákúbá (ladrão), com três sílabas tônicas; e há ainda palavras como Lilongwe, nome da capital do Malawi, em que nenhuma das três sílabas é tônica.

Se também a palavra Malaŵi não tivesse nenhuma sílaba tônica, ou tivesse duas (ou todas as três) sílabas tônicas, haveria alguma dificuldade para determinar a sílaba tônica de um eventual aportuguesamento do nome; por acaso, porém, também em nianja o nome do Malaŵi tem uma única sílaba tônica: a segunda (Ma-lá-ŵi).

Sabemos, assim, que, sem sombra de dúvida, a sílaba tônica do nome do país, tanto na língua inglesa quanto na considerada língua “nacional”, é a segunda, “-la-“. Estariam já assim descartados, portanto, os aportuguesamentos Malauí ou a também oxítona Malavi, ou as eventuais proparoxítonas. A única dúvida remanescente poderia ser como aportuguesar o “w” – se como “v” (gerando Malávi) ou como “u” (gerando Maláui).

O que poderia parecer de óbvia resposta está longe de ser óbvio: na verdade, o nome do país em nianja tradicionalmente escreve-se não com o w de Lilongwe (que equivale ao “w” com som de “u”, semivogal, do inglês), mas, sim, Malaŵi, com o mesmo ŵ com acento circunflexo existente no nome da língua Chicheŵa – letra que, tradicionalmente, na língua Chicheŵa, era pronunciado como /β/ (símbolo fonético para o som intermediário entre “b” e “v”, em que os lábios sequer chegam a se tocar, que é marca da pronúncia comum tanto do “b” quanto do “v” mediais da língua espanhola).

No entanto – e apesar dos esforços do primeiro presidente do país em enfatizar a importância de se escrever e pronunciar “corretamente” a letra ŵ, que seria uma marca própria da língua nianja -, a maioria da população malawiana hoje escreve e pronuncia o ŵ como qualquer outro “w”, com o “ŵ” com som de /β/ tendo praticamente desaparecido da linguagem escrita e também quase completamente da língua oral. Há livros e mais livros inteiros de ensino da língua que sequer mencionam o já quase desaparecido som.

A pronúncia predominante em nianja é hoje, portanto, a mesma da língua inglesa, que corresponde à grafia aportuguesada Maláui.

Não fazem nenhum sentido formas como Malauí, que se veem por aí – assim como não faz sentido a forma Malaui (sem acento), que é a que registra, erradamente, o Dicionário Houaiss.