Marrakesh em inglês, Marrakech em francês: Marraquexe em português

1507-1

Em português, o nome da cidade marroquina que recebe o maior número de turistas é Marraquexe. Marraquexe? Sim, em português, Marraquexe – grafia incluída no Vocabulário de Nomes Próprios da Academia Brasileira de Letras (fotos abaixo) e usada nas boas enciclopédias brasileiras e portuguesas.

Como a maioria das grandes cidades históricas, internacionalmente conhecidas desde a antiguidade (como Londres, Roma, etc.), a cidade marroquina tem grafias tradicionais em diferentes línguas: em francês, seu nome é Marrakech; em inglês, Marrakesh (com a troca do “ch” francês pelo “sh” inglês, que representa o mesmo som); em alemão, Marrakesch (com “sch”, que representa em alemão o som do “sh” inglês ou do “ch” francês); em polonês, Marrakesz, pela mesma razão; em africâner, Marrakesj; em grego, Μαρακές; em basco, Marrakex – e, em português, Marraquexe – como se lê nas boas enciclopédias e dicionários de nomes próprios 

Sem títuloSó poderia ser Marraquexe em português, porque é uma regra da ortografia portuguesa que se usa a letra “x” (e não o dígrafo “ch“) para representar o som chiado, de “sh” (/ʃ/, no alfabeto fonético internacional), em todos os aportuguesamentos vindos de línguas que não usam o nosso alfabeto – o que inclui as palavras de origem árabeafricana, hebraica, persatupiturca.

São exemplos de palavras de origem tupi: abacaxi, guaxinimmacaxeirapixaimxamã, xaráde origem africana: xingarmaxixemuxoxoxaráquixima (poço d’água), orixá; de origem árabe: almoxarifado, xadrez; oxalá; xerife; xarife; xeque; xeiquexarope; de origem persa: (antigo rei da Pérsia ou Irã); xale (manto); xador, etc.

Além da regra ortográfica, sempre foi esse o uso: é Marraquexe, com xis, que se acha em boas enciclopédias portuguesas e brasileiras, como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira; a Enciclopédia Melhoramentos (foto abaixo); a Encicloplédia Brasileira Mérito; em dicionários que trazem nomes de cidades, como o Dicionário Inglês-Português Webster (foto abaixo).

É, ainda, a forma usada pelo governo de Portugal e pelo governo brasileiro (incluída a imprensa nacional e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil); e a única forma aceita de acordo com o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, que traz os nomes de países, cidades e estados em língua portuguesa:

IMG_0702m %284%29

Enciclopédia Melhoramentos:
Enciclopédia Melhoramentos (1)

Dicionário Inglês-Português Webster:Webster's Portuguese-English dictionary (1)

Enciclopédia Brasileira Mérito (1959, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Recife)

IMG_4170

A Enciclopédia Brasileira Mérito, da Editora Mérito, foi publicada em 1959, simultaneamente em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Porto Alegre e no Recife. Foi a primeira enciclopédia autodeclarada brasileira. Mais que isso, era por si uma biblioteca: 20 volumes grandes e pesados (que hoje podem ser encontrados à venda na internet por 500 reais), com a característica de ser extremamente zelosa da “pureza” da língua, recusando qualquer estrangeirismo – no que discrepava da maioria das enciclopédias até então (e na verdade, até hoje) existentes.

Enquanto a maioria das enciclopédias no Brasil e em Portugal apenas traduzia conteúdo, mas mantendo nomes de cidades, línguas, povos, etc., em inglês ou francês, os editores da Enciclopédia Mérito praticamente não deixaram passar um nome sem aportuguesá-los: estão lá, já na edição de 1959, formas corretíssimas como Abcásia e abcásios (para a região – e o povo da região – que a imprensa brasileira insiste em chamar, à inglesa, de Abkhazia); e Bacu, Camerum, Campala, Cuaite, Ierevã e Marraquexe (para as cidades que nossos jornais no século XXI continuam a chamar, à inglesa, Baku, Cameroon, Kampala, Kuwait, Yerevan e Marrakesh / Marrakech).

Até mesmo o tão esquecido e ignorado – porém absolutamente necessário – acento no primeiro “i” de Fíji está lá, presente em todas as menções à ilha, em todos os 20 volumes.