A mesóclise de Temer: não fez sentido, mas quem “importar-se-á”?

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[A mesóclise do título acima – “quem importar-se-á?” está, obviamente, errada – por isso as aspas de ironia. O nível dos leitores habituais da página dispensaria a necessidade de explicitar essa obviedade, mas, como este texto acabou tendo repercussão muito maior que a habitual, acabou atraindo a atenção (e a raiva) de gente que nem mesmo com as aspas entendeu a ironia – precisariam, aparentemente, do ponto de ironia.]

Um dos aspectos que chamaram a atenção no discurso inaugural de Michel Temer como presidente em exercício do Brasil foi o seu uso de uma mesóclise. Colunista da Veja rasgou-se em elogios: “Um discurso impecável na forma e no conteúdo (…) A forma foi impecável. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se a presença de uma autoridade que inspirava respeito. Sem gritos, sem atropelos à língua, sem suor, sem dedo em riste. Temer, com um risinho contido, recorreu até a uma mesóclise“.

Eis, porém, o que efetivamente disse Temer (o discurso inteiro pode ser lido aqui, na página da Presidência da República): “Mas eu quero fazer uma observação. É que nenhuma dessas reformas alterará os direitos adquiridos pelos cidadãos brasileiros. Como menos fosse sê-lo-ia pela minha formação democrática e pela minha formação jurídica. Quando me pedirem para fazer alguma coisa, eu farei como Dutra, o que é que diz o livrinho? O livrinho é a Constituição Federal.

Se o uso de uma mesóclise em 2017 enriquece ou não um pronunciamento é ponto aberto para debate. Mas, como todo bom jornalista sabe, nada importa mais a uma frase do que ter sentido. E a frase em questão – “Como menos fosse sê-lo-ia pela minha formação democrática e pela minha formação jurídica” – simplesmente não tem sentido, dentro ou fora de contexto. A expressão “como menos fosse” simplesmente não existe. Temer deve ter querido usar a expressão clássica “quando mais não fosse“, que significa, essa sim, “Se por outro motivo não fosse“.

Destacar essa frase específica como prova do “bom português” que “fazia falta a governantes brasileiros” revela, no mínimo, um excesso de boa vontade para com o novo governante em exercício.

Impecável” é, ainda, modo exagerado de qualificar em forma o discurso de Temer, especialmente vindo de alguém que, como o jornalista em apreço, confere importância a erros (do ponto de vista de vista da norma culta tradicional) de concordância, de regência ou de sintaxe – que abundaram no discurso em questão, como se pode ler na sua versão integral, aqui, ou em excertos como: Temos pouco tempo, mas se nos esforçarmos, é o suficiente para fazer as reformas que o Brasil precisa“; “Olha aqui, vocês, que vão ocupar os poderes, exerçam-no com harmonia”; “Por isso, nessa tarde de quinta-feira não é momento para celebrações”; “Todos nós compreendemos o momento difícil, delicado, ingrato que estamos todos passando”; “Bilhões de pessoas assistirão jogos, jornalistas de vários países estarão presentes para reportar o país-sede das competições.”