Tatuzão, tatuzões

[Título da Pauta]

N’O Globo, lemos que “Com manobra de engenharia, tatuzão cruza trecho alagado”. Na Folha de S.Paulo, lemos que houve um problema quando “uma pedra caiu na câmara do tatuzão“. Em 2013, O Estadão informava que “Pela primeira vez, obra do metrô terá três tatuzões“.

Embora ainda faltem no Aurélio e no Houaiss, tatuzões são, no Brasil, as gigantescas escavadeiras subterrâneas, usada na construção de túneis.

O ClicRBS explica melhor: “Movido a energia elétrica, o Tatuzão é composto por uma roda gigante, que, na parte da frente, corta, tritura e engole o solo em pedaços de até 40 centímetros. Uma vez “deglutidos”, os nacos de terra são enviados, por uma esteira, até a estação de apoio“.

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Como se escreve em português o nome do salgado árabe? Esfirra, esfiha, sfiha, isfirra…?

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Resposta rápida: em português é esfirra o nome do salgado de origem árabe. A palavra já está plenamente aportuguesada: está escrita, nessa forma (“esfirra”) em todos os grandes dicionários brasileiros – Aurélio, Houaiss, Michaelis, Aulete, etc, e está também no Priberam, de Portugal. Ademais, já está até registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras.

Resposta completa: A esfirra é um salgado feito de massa de farinha de trigo, com recheio (no caso das esfirras fechadas) ou cobertura (no caso das esfirras abertas) que pode ser carne, queijo, etc. Trazidas pelo grande contingente de imigrantes sírios e libaneses que chegaram ao Brasil no século XX, as esfirras tornaram-se parte da gastronomia do Brasil, onde são mais conhecidas e consumidas do que em partes do mundo árabe. Em países de língua espanhola e inglesa, usa-se a transliteração sfiha, mais próxima do árabe, em que o “h” representa uma aspiração, como em inglês (ou alemão). No futuro, poder-se-á notar que a palavra esfirra terá entrado no português tardiamente, apenas no fim do século XX, como de fato o foi, devido ao fato de, no aportuguesamento, ter-se trocado o som aspirado do “h” árabe por dois “rr” – que de fato são pronunciados como o som aspirado do “h” inglês pela maior parte dos jovens cultos da maior parte das cidades brasileiras.

Esse fenômeno, porém – o de substituir por “rr” o som do “h” aspirado de outras línguas – é quase inédito na história do português, uma vez que historicamente o “r” português e brasileiro era vibrante, como é o “r” espanhol até hoje, de modo que não faria sentido aportuguesar como “-irra” uma terminação pronunciada “-iha”, uma vez que, em árabe, também existe o “r” vibrante, que representa, porém, som que nenhum árabe confundiria com seu próprio “h” (diferença tão nítida e perceptível para os árabes, por exemplo, quanto o são para os falantes do espanhol as duas consoantes da palavra rojo (vermelho), ou, para os alemães, as duas primeiras consoantes de Haaren (cabelos)).

A inexistência em português antigo do som da aspiração representada pelo “h” em inglês, alemão etc fez que várias palavras estrangeiras que continham esse som fossem aportuguesadas simplesmente descartando a letra: assim, por exemplo, o deserto do “Sahara” virou entre nós “Saara”; o “nihilisme” dos franceses, de nihil, “nada” em latim, deu entre nós “niilismo”; o alcohol, que as demais línguas ocidentais derivaram do árabe, mas que em português virou “álcool”; ou ainda o nome da língua e do povo swahili, da costa oriental da África, que deram no aportuguesamento “suaíli” (existindo ainda a variante “suaíle”, devido ao fato de o “e” no final, tanto no Brasil quanto em Portugal, em geral soar como “i”).

Apenas posteriormente o erre vibrante (“à espanhola”) deixou de ser a forma dominante da pronúncia do “r” em início de palavras ou entre vogais no dialeto de Lisboa e das principais cidades do Brasil, tendo sido substituído, no Brasil, pelo som aspirado semelhante ao do “h” inglês, o que faz que hoje tenha sido aceito sem polêmicas um aportuguesamento como “esfirra”, em contradição com a tradição da língua e representando uma mudança importante na história da entrada de novas palavras na língua portuguesa, provenientes de outras línguas.

Foi por essa razão que, inicialmente, os “puristas” da língua portuguesa condenaram a ideia de transliterar o “h” aspirado árabe como dois “rr” em português – e, diziam eles, o único aportuguesamento possível de “esfiha” seria “esfia“. A rejeição popular a essa forma, porém, tornou inevitável a aceitação, hoje consensual entre dicionaristas brasileiros e mesmo portugueses, da forma “esfirra“.

Para se aprofundar mais sobre esse tema (o da equiparação do som dos “rr” ao som do “h” aspirado “internacional” no português brasileiro, e os desafios que esse fenômeno implica para o sistema ortográfico unificado da língua, vide a resposta “O “h” não mudo (ou h aspirado) em português: handebol, jihadista, bahamense, Hanói, bahaísmo, etc.“.

“Crocância”, existe essa palavra? Existe em português a palavra “crocância”?

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Afinal, é correta ou não em português a palavra “crocância”?

Resposta rápida: Sim, a palavra “crocância” existe em português há décadas, e já está até no dicionário Houaiss (brasileiro), assim como em dicionários portugueses.

Resposta completa: Uma concepção equivocada sobre a língua portuguesa comum entre os não especialistas é a crença de que uma palavra só existe se está no dicionário. Absolutamente errado – nenhum dicionário traz todas as palavras existentes. O Aurélio, considerado o dicionário de referência pela maioria dos brasileiros, não traz nem 150 mil palavras – ao passo que as maiores listas de vocabulários impressos da língua portuguesa trazem mais de 350 mil palavras, e vocabulários digitais reconhecem mais de 2 milhões de palavras portuguesas diferentes.

O fato de uma palavra não estar no dicionário, portanto, não significa, de forma alguma, que a palavra não exista.

A palavra crocância, por exemplo, não está no dicionário Aurélio, mas tem milhões de ocorrências em livros de gastronomia – o que já prova que existe. A palavra, ademais, está formada de modo correto, de acordo com a lógica da língua: se algo “elegante” tem “elegância”, se algo abundante tem abundância, se o petulante tem petulância, e o tolerante, tolerância, é simplesmente lógico que o eventual substantivo referente ao adjetivo crocante seja “crocância”.

E tampouco se pode dizer que é um neologismo – no século passado, em publicações técnicas, encontram-se diferentes ocorrências da palavra:

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Atualização: desde a publicação deste texto, em 2015, diferentes dicionários incluíram a palavra “crocância”: o dicionário Houaiss (do Brasil), o dicionário Priberam (de Portugal) e o dicionário Estraviz (da Galiza).

Em resumo: muitas palavras existem mesmo sem aparecer nos dicionários. Mas, no caso específico de crocância, nem é esse o caso – o uso crescente da palavra nos últimos anos já acabou levando até a sua (bem-vinda) dicionarização.