Uma inocente “gazopa”…

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O problema de escrever sobre modalidades de português que não a sua é, sempre, o risco de repercutir alguma besteira. É o que faz hoje o Priberam – que não tem nenhum brasileiro em sua equipe e, ao escolher sua “palavra do dia” de hoje, escolhe – e expõe para portugueses e demais estrangeiros como se fosse uma palavra corrente no Brasil – um suposto sinônimo brasileiro para “mentira”: “gazopa”. O problema? Ao contrário do que a definição do Priberam faz supor, a palavra “gazopa” não tem uso (nem mesmo é conhecida) no Brasil.

O mais tradicional dicionário brasileiro, o monumental Dicionário Aurélio (o “Aurelião”), não registra o termo. O Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, cujas palavras que o integram foram selecionadas mediante constatação empírica de sua ocorrência na língua, tampouco traz a tal gazopa. Os Dicionários da Academia Brasileira de Letras tampouco trazem a palavra.

Aliás, nem mesmo o Dicionário Informal, o mais completo compilado de gírias brasileiras, conhece a tal gazopa.

A palavra existiu, sim, como gíria de limitada expansão geográfica, décadas atrás – que deve ser como foi parar no Houaiss, de onde o Priberam a terá copiado. Mas erra o Houaiss, e erra o Priberam, ao não indicar que a palavra só teve uso limitado e há tempos – como uma rápida pesquisa no Google ou mesmo no Twitter facilmente demonstra.

Apenas um exemplo mais do que já tanta vezes vimos aqui: que o Houaiss, embora gigantesco e excelente, está repleto de erros; e que, por ser o Houaiss tão bem reputado, os demais dicionários hoje se limitam a copiá-lo, disseminando sem qualquer critérios erros “originais” daquele dicionário.