Malanje ou Malange?

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Em Angola é comum a dúvida quanto a se é “Malanje” ou “Malange” que se escreve o nome da província angolana e da sua capital. Os nossos leitores assíduos poderiam nunca ter ouvido falar nesse lugar, mas saberiam já que, se se trata de um nome africano, deve ser escrito com “j”, e não com “g”. E acertariam. A grafia oficial é mesmo Malanje, com jota.

Como já ensinamos aqui, por convenção ortográfica usa-se em português o jota – e não a letra gê – na escrita das sílabas que soam “je” e “ji” em palavras portuguesas vindas de línguas africanas.

Por se tratar de nome próprio é claro, porém, que a forma oficial poderia ser diferente – governos, decretos e leis municipais podem sempre, é claro, oficializar uma grafia “errada”, isto é, que não segue as regras ortográficas oficiais (como já vimos ser o caso dos nomes de vários municípios brasileiros) – e, em se tratando de nomes de localidades (ou de pessoas) de países lusófonos, o correto é seguir o uso registrado “no papel”, mesmo que esse contrarie as normas ortográficas.

No caso de Malanje, porém, não há polêmica: embora de fato se veja por aí, com alguma frequência, a grafia Malange, o fato é que o governo da cidade, da província e mesmo o nacional de Angola respeitam a ortografia oficial portuguesa e escrevem sempre Malanje – como se pode ver nesta lista da página oficia do governo angolano, com os nomes oficiais de todas as províncias do país.

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O tagine (e não a tajine): prato marroquino

Em francês, chama-se tajine ou tagine a um prato tradicional do Marrocos, bem como ao tipo de panela de barro em que o prato é preparado e servido. É palavra masculina: un tagine, não “une“. Em português, pela etimologia, deve ser escrito com a letra “g” (e não com jota): o correto em português será “o tagine“, “um tagine“.

Como ensina Rebelo Gonçalves – considerado um dos “pais” da moderna ortografia da língua portuguesa – já em seu clássico “Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa”: em português, “em palavras de origem arábica se não faz uso de j, mas de g, antes de e ou i– enquanto o jota, por sua vez, é de rigor nas palavras de origem ameríndia (tupi, guarani, etc.) e nas palavras de origem latina (por isso “majestade” e “jeito”, e não *magestade ou *geito). A mesma observação já se encontra na mais antiga gramática da língua portuguesa que se conhece: na Orthografia da Lingoa Portuguesa, publicada em 1576, Duarte Nunez do Lião afirma que o uso do “g” com som de jota (de “i consoante”) antes das vogais e & i é “alheia dos gregos e latinos, e própria dos mouros, de quem a recebemos”.

Eis exemplos de palavras de origem americana (indígena), em que se usa a letra j): ajeru (papagaio), canjerê, canjica, jecoral, jenipapo, jequitibá, jerimum, jiboia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti, jitirana, mucujê, pajé.

É o contrário do que ocorre com as palavras de origem árabe ingressadas na língua portuguesa – em que sempre se usou, para representar o mesmo fonema, a letra g: alfageme, álgebra, algema, algeroz, algibebe, algibeira, álgido, almargem, Argel, Argélia, auge, gengibre, gergelim, geringonça, gesso, Gibraltar, Gidá, ginete, girafa, gíria, hégira, Tânger…

O nome do cozido marroquino feito em geral com carne de frango ou de cordeiro e com legumes, bem como o nome do recipiente de terracota em que o referido cozido é preparado e em geral servido, pode ser escrito, em francês ou inglês, indiferentemente “tagine” ou “tajine” – neste caso, devendo-se grafar, num texto em português, a palavra em itálico, sublinhada ou entre aspas, para se deixar claro estar-se usando um estrangeirismo. Aportuguesada, a palavra só poderá ser escrita tagine, substantivo masculino.