Não caia no mito do “risco de morte”: o certo é e sempre foi “risco de vida”

Alguém que pode morrer a qualquer momento corre “risco de vida” ou “risco de morte”? Só uma das duas expressões existe nos dicionários, gramáticas e clássicos portugueses e brasileiros – “risco de vida” é a forma usada pelos clássicos da língua portuguesa há séculos. Já “risco de morte” é uma forma inventada em tempos de Internet, pelos “gênios” do século XXI que decidiram tentar deixar a língua mais lógica…

Já falamos aqui sobre os falsos erros, ou erros inventados de português. E não são poucos esses erros inventados, em grande parte porque existem os inventores profissionais de falsos erros: são aqueles homens e mulheres que vivem de corrigir erros de português dos outros, e que chegaram à conclusão de que é conveniente inventar regras que não existem, criando assim novos “erros” de português – pois, afinal, o seu prestígio e a sua renda vêm justamente da insegurança que esses charlatães disseminam entre os falantes da língua.

Uma dessas recentes invencionices é o tolo mito de que “risco de vida” seria expressão incorreta e a ser substituída por “risco de morte”, porque a expressão “risco de vida” não seria “lógica”.

A verdade é que “risco de vida” tem tanta lógica quanto “risco de morte”: em ambas existe uma elipse: a omissão de parte da frase. Em risco de vida, subentende-se risco de perder a vida. Já “risco de morte” seria o risco de se chegar à morte.

Então dá no mesmo dizer “risco de vida” ou “risco de morte”?

Quase. Porque há uma importante diferença entre as duas formas: “risco de vida” é forma tradicional em português, histórica. Já vinha em dicionários de 1800. É “risco de vida” a expressão que se encontra ao ler os grandes clássicos brasileiros – Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, etc. – e portugueses, como Garrett e Camilo Castelo Branco (ver imagem ao fim deste texto).

Já em 1640 encontramos exemplo de “risco de vida”, em Apolo, de Francisco Manuel de Melo: “A nada se rendeu, detendo-se a seu respeito todo o curso dos negócios, com desabrimento de el-Rei e valido, que nem pessoalmente rogando-lhe o seu voto deixou também o Cellis de lho negar pessoalmente. Sucedeu neste tempo adoecer com grande risco de vida e, confessando-se para acabá-la, lhe persuadiu o confessor (que devia de ir bem persuadido…) consentisse na vontade de el-Rei.”

Os grandes clássicos da língua portuguesa sempre usaram risco de vida, e nunca “risco de morte“. “Risco de vida” é uma expressão consagrada em português, com séculos de vida. “Risco de morte” é uma invencionice dos tempos da Internet.

“Risco de vida” é, por exemplo, a única forma registrada no Dicionário Houaiss. Já “risco de morte” é um artificialismo sem tradição na língua, inventado há poucos anos por charlatães da língua.

E, embora a grande mídia seja, em geral, agente propagador desse tipo de erros inventados, felizmente “até” a Revista Veja e o professor Pasquale concordam neste aspecto: “risco de morte” é um modismo injustificado. Não caia, portanto, nessa: a forma tradicional – e corretíssima – em português é mesmo “risco de vida“.

risco de vida