Hifens inúteis: marcapasso, picapau, vagalume, paralamas, parabrisa, parachoque…

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Com quase certeza não terá sido proposital essa “desobediência civil” (ortográfica) da Folha de S.Paulo, mas não deixa de ser emblemática da obsolescência de nossos vocabulários e dicionários, portugueses e brasileiros, no que tange ao tantas vezes inútil hífen.

A Folha escreve marcapasso. Mas os dicionários e os vocabulários acadêmicos do Brasil e de Portugal só trazem marca-passo, com um hífen que, além de desnecessário, não reproduz a pronúncia corrente. Não é o único caso, aliás, em que os vocabulários e dicionários já há muito foram deixados para trás pela população e por meios de comunicação, que discordam da regra burra seguida por dicionários de sempre hifenizar compostos formados por verbo + substantivo. Outros exemplos dessa razoável “desobediência civil” são picapau, que a Academia e os dicionários até hoje mandam grafar pica-pau, apesar de, um século atrás, Monteiro Lobato já ter imortalizado o sítio do
Picapau Amarelo”; vagalume, que os acadêmicos insistem em grafar vaga-lume, ao contrário dos escritores de bom senso, que não veem naquele hífen utilidade nem lógica; e paralamasparabrisas e tantas outras palavras, que são quase unanimemente escritos aglutinados nas oficinas e anúncios de todo o país, ignorando os empoeirados vocabulários e dicionários, que mantêm hifens nessas palavras.

E sequer se pode dizer que essa mania hifenizadora dos vocabulários e dicionários tem respaldo no Acordo Ortográfico. Pelo contrário – o Acordo Ortográfico de 1990, que é o único instrumento com força de lei no que tange à ortografia da língua portuguesa no Brasil e em Portugal, diz expressamente:

Obs.: Certos compostos, em relação aos quais se perdeu, em certa medida, a noção de composição, grafam-se aglutinadamente: girassol, madressilva, mandachuva, pontapé, paraquedas, paraquedista, etc.

Se paraquedas, paraquedista (e parapeito, parapente, etc.) se escrevem sem hifens nos mesmos dicionários e vocabulários, e conforme recomendação expressa do texto legal ortográfico, por que vocabulários continuam trazendo somente com hifens formas como *para-lamas, *para-brisa, *para-choque (contrariando, aliás, o uso popular, que segue a lógica da língua e o instinto dos falantes)? Simplesmente porque  os vocabulários, seja o da Academia Brasileira de Letras, sejam os vários feitos em Portugal, são todos obras desatualizadas e cheias de lacunas. Mas e por que os dicionários, brasileiros e portugueses, seguem esses vocabulários e não acatam de uma vez as formas aglutinadas, mais usadas, mais lógicas e completamente permitidas pelo texto legal, se o fato é que nenhum dos ditos vocabulários tem qualquer vigência legal ou oficial? Há de se perguntar a eles…

Se o texto do Acordo Ortográfico permite escrever aglutinadamente girassol, mandachuva, paraquedas, “etc.”, é claro que é ideal também continuar a escrevendo, como muitos há muito já escrevem, vagalumepicapauparalamasparabrisaparachoque e marcapasso.


E, antes que alguém diga que o que se propõe aqui poderia levar a uma verdadeira “anarquia ortográfica”, considerem-se estes três pontos:

1) A língua não precisa de regras tão rígidas de hifens; tome-se para isso o exemplo da língua inglesa, que se sai muito bem sem regras rígidas para o uso do hífen, podendo cada falante decidir, na hora da escrita, se quer escrever “air-crew“, “air crew” ou “aircrew“; “best seller“, “best-seller“, “bestseller” – todas as opções são corretas em inglês;

2) O espanhol, por outro lado, aboliu completamente o uso do hífen na formação de palavras (em vez de ex-primeira-dama, escreve-se “ex primera dama“; em vez de porta-voz, escreve-se “portavoz“), e o que se percebeu é que, no fundo, o hífen não faz falta; e, finalmente:

3) A suposta “anarquia ortográfica” já existe, uma vez que, como se vê, nem os veículos de imprensa conservadores brasileiros seguem as ilógicas recomendações dos dicionários e da Academia Brasileira de Letras no que tange às desnecessariamente problemáticas e surrealmente complexas regras de hífen.