Proximidade e distância entre as línguas europeias

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No gráfico acima – clique aqui para ver o gráfico em tamanho maior -, indicam-se, pelos diferentes tipos de traços ou pontilhados, a distância (ou, a depender do ponto de vista, a proximidade) lexical – isto é, no vocabulário geral – entre as línguas europeias. As cores refletem grupos.

O português e o galego, por exemplo, compartilham mais de 75% do vocabulário com o espanhol; entre 55% e 75%, com o italiano; e entre 40 e 55%, com o francês. Já o catalão tem mais de 75% de léxico compartilhado com o espanhol e com o italiano; e o italiano; de 55% a 75% com o francês, que por sua vez tem entre 30% e 40% de léxico compartilhado com o inglês, etc.

A imagem em tamanho original está aqui.

Besteiras inventadas: alunissar/alunizar, amartizar/amartissar – é melhor pousar ou mesmo aterrizar

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Dos franceses, inventores da atterrissage e do verbo atterrisser, copiamos “aterrissagem” e “aterrissar” – que, como já visto, podem ser substituídos pelas formas aterrizaraterrizagem, que, além de mais ouvidas hoje, são mais condizentes com a formação vocabular portuguesa – ou, melhor ainda, pelas ainda mais tradicionais e simples pousar pouso.

Com a chegada do homem e de satélites nossos a outros astros do sistema solar, os franceses têm ido além, inventando verbos específicos para cada astro – ideia absurda e sem propósito, copiada pelos espanhóis, que, seguindo o erro, decidiram que, “se pousar na Terra é aterrizar, pousar na Lua é alunizar e, em Marte, amartizar“.

Uma absurda ignorância é o que essas invencionices revelam. O radical “-terr-” de aterrizar ou aterrissar não vem do nome do planeta Terra, mas, sim, de terra no sentido de chão, solo, terra firme – por oposição a céu ou mar.

É perfeitamente correto, portanto, dizer “aterrizar em Marte“, ou falar de uma “aterissagem na Lua“.

Outra opção válida, recorde-se, é recorrer ao bom e velho pouso – “pousar em Marte”, “pouso na Lua”, construções também corretíssimas. O que não faz o menor sentido é inventar verbos e substantivos novos para cada astro em que se venha a pousar (ou aterrizar).

“Aterrizar” ou “aterrissar”: o que não existe é *aterrisar

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Tanto a palavra aterrissar quanto a palavra aterrizar existem e são corretas em português. As duas formas significam pousar (na terra) e estão registradas no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, no dicionário Aurélio, no dicionário Houaiss, no dicionário Michaelis, etc. É correto, portanto, pronunciar e escrever de qualquer dos dois jeitos – com z ou com ss. O que é errado é escrever *aterrisar – forma inexistente, fruto da mistura das duas formas válidas (aterrissar aterrizar).

Além de “pousar”, outro sinônimo válido é aterrar, forma clássica e usada em Portugal.

Até não muito tempo atrás, os dicionários brasileiros só consideravam válida a forma aterrissar – forma derivada diretamente do francês -, e diziam ser errada a pronúncia  mais comum em todo o país, aterrizar. Pura ignorância dos acadêmicos: aterrizar é que é a forma condizente com a formação de verbos em português (radical + izar, como americanizar, batizar, canalizar, fertilizar, moralizar, otimizar, totalizar, etc.) – e não aterrissar, que é puro decalque do francês atterrisser. Recentemente, os dicionários e vocabulários finalmente passaram a aceitar, corretamente, a forma aterrizar.

Quem nasce em São Pedro da Aldeia é aldeense

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Nos comentários de hoje, um leitor da cidade de São Pedro da Aldeia, no estado do Rio de Janeiro, pergunta como se chama, afinal, quem nasce em sua cidade (ou seja, qual é o gentílico de São Pedro da Aldeia): queria saber se o certo é “aldeiense“, como trazem dicionários brasileiros, ou “aldeense“, como se usa na cidade.

O certo é aldeense. Como já vimos aqui tantas outras vezes, os dicionários brasileiros são atualmente uma péssima fonte de consulta no que concerne aos nomes de cidades brasileiras e gentílicos – em geral, desatualizados há décadas.

O que determina o gentílico a ser usado em português, para cidades do Brasil (ou de qualquer outro país de língua portugesa), só pode ser, é claro, o uso oficial. E o termo usado oficialmente pela cidade é aldeense.

Como mostra a placa comemorativa acima, o poder legislativo do município de São Pedro da Aldeia confere a ilustres visitantes o título de “cidadão aldeense”. Do mesmo modo, a prefeitura da cidade (poder executivo) só usa a forma aldeense (e não *aldeiense).

E, nesse caso, o erro dos dicionários não tem nem explicação: aldeense segue a formação etimológica dos derivados de “aldeia”, que normalmente perdem o “i” (como aldeão, aldeãaldeamento) e, por outro lado, aldeense é também a única forma aceita pelo Vocabulário Ortográfica da Academia Brasileira de Letras e pelo Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP.

Foi justamente pela deficiência dos dicionários brasileiros hoje no que tange a gentílicos que criamos o Dicionário de gentílicos do Brasil. Todas as formas ali identificadas foram verificadas e reverificadas por nossa equipe, e são as formas oficiais pelas quais são chamados os cidadãos dos estados e municípios brasileiros.

Madri ou Madrid? Na nova ortografia, o certo é sempre Madrid

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Pelo menos uma coisa a coordenadora Patrícia Lima Ferraz, que tirou licença médica e foi passear na Espanha, fez certo: escreveu corretamente o nome da capital espanhola, Madrid – com “d”,  como manda explicitamente o Acordo Ortográfico vigente (e não como, erroneamente, ainda escreve a imprensa brasileira, que se meteu a aplicar o Acordo, mas dele só leu o resuminho).

Qualquer pessoa que diga que o Acordo Ortográfico admite as duas formas – Madrid e Madri – ou não leu o texto do Acordo, ou, se o leu, entendeu exatamente o contrário do que está claramente escrito. Porque o texto do Acordo (vejam aqui a versão oficial, publicada na página do Palácio do Planalto) é explícito:


“5º) As consoantes finais grafadas b, c, d, g e t mantêm-se, quer sejam mudas, quer proferidas, nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropônimos [nomes de pessoas] e topônimos [nomes de lugares] da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac; David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. 

Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valhadolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. 

Nada impede, entretanto, que dos antropônimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.”


Não há outra interpretação possível: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pelo Congresso Nacional e com força de lei no Brasil, determina que, independentemente de o “d” de Madrid ser pronunciado ou não, deve-se escrever Madrid.

O certo é “um churro”, nunca “um churros”

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Por incrível que possa parecer, muita gente faz essa pergunta: existe “churro”, no singular? Sim, é claro que existe churro – o singular de churros é churro. No singular, um churro; no plural, churros.

É errado dizer *um churros, ou *o churros. A palavra churro (que não precisa de aspas, já que é uma palavra portuguesa, registrada em todos os dicionários) de um substantivo regular: assim como se diz um cachorro-quente, dois cachorros-quentes, e um burro, dois burros, deve dizer-se, sempre, “um churro” no singular, e churros somente no plural.

A palavra vem do espanhol, onde, como aqui, o singular é regular – un churro -, e churros é apenas a forma plural.

Duzentos milhões ou duzentas milhões de pessoas?

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O certo é dizer “duzentas milhões de pessoas” ou “duzentos milhões de pessoas”? Esse é um caso que engana muita gente – então, atenção: milhões é sempre masculino. Independentemente de o complemento ser feminino (“milhões de crianças”, “milhões de pessoas”), o numeral sempre fica no masculino: “dois milhões de mulheres”, “trezentos milhões de pessoas”. Assim, deve sempre dizer-se:  dois milhões de crianças (e nunca *duas milhões);

“trezentos milhões de visualizações” (e jamais *trezentas milhões);

“…de duzentos e oitenta a seiscentos milhões de pessoas…”, e não *duzentAs e oitenta a seiscentAs milhões“;

“…quinhentos milhões de novas tomadas”, e não *quinhentas milhões de novas tomadas, etc.