“Costa-ricense”, e não “costa-riquenho”

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Quem nasce na Costa Rica é costa-ricense – forma melhor do que costa-riquenho.

A terminação “-enho” para adjetivos pátrios não é própria da língua portuguesa – é o simples aportuguesamento da terminação espanhola “-eño“, e portanto somente ocorre em adjetivos pátrios emprestados do espanhol, naturalmente referentes a países e lugares onde se fala espanhol: panamenho (do Panamá), hondurenho (de Honduras), pacenho (de La Paz), etc.

Ocorre que nem em espanhol os habitantes da Costa Rica são chamados costarriqueños (palavra “pouco usada” em espanhol, segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola),  mas sim costarricenses

Se só usamos a terminação “-enho” em empréstimos do espanhol, e mesmo em espanhol a forma usada é costarricense, não há justificativa, assim, para que em português usemos o adjetivo “costa-riquenho”.

(Em português, diferentemente do que ocorre em espanhol, os gentílicos devem obrigatoriamente separar-se por hífen – logo, escrevemos costa-ricense.)

A forma “costa-riquenho” é frequentemente ouvida por gente pouco habituada a falar da Costa Rica, por influência de Porto Rico – cujos habitantes são, eles sim, porto-riquenhos.

Manual de Redação do Ministério das Relações Exteriores brasileiro apenas admite a forma costa-ricense como adjetivo pátrio para a Costa Rica.

Bem é verdade que os dicionários trazem tanto costa-ricense quanto costa-riquenho e mesmo outras formas, como costa-riquense. Os mesmos dicionários, porém, também trazem “brasilíada”, “brasilense” e mesmo “brasiliense” como adjetivo pátrio para o Brasil. Embora não seja, portanto, tecnicamente incorreto chamar alguém nascido no Brasil de “brasilense”, é importante que quem escreve sobre o Brasil saiba que o adjetivo que de fato se usa é “brasileiro”.

Do mesmo modo, embora não se possa dizer que a forma “costa-riquenho” é errada (do mesmo modo que brasilense também é correto), vale a quem interessar saber que – do mesmo modo que chamar alguém nascido no Brasil de “brasilense” pode causar estranheza, uma vez que a forma mais usada é “brasileiro” – o adjetivo mais aceito e mais usado por aqueles que escrevem frequentemente a respeito da Costa Rica é costa-ricense.

“Ambos”, com ou sem artigo: ambos lados ou ambos os lados? Ambas formas ou ambas as formas?

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“Ambos lados” ou “ambos os lados”? “Ambas mãos” ou “ambas as mãos”? Quando a palavra “ambos” (ou “ambas”) vem acompanhada de um substantivo, o artigo definido obrigatório: em português, o correto é escrever “ambos os lados”, “ambas as mãos”, “ambos os países”, “ambas as formas” – sempre com o artigo definido.

As formas sem artigo podem ser facilmente encontradas… em espanhol. É na língua de Cervantes que se diz “ambos países“, “ambas formas“, “ambos lados“, “ambas perspectivas“, etc., sem artigo entre a palavra “ambos” e o substantivo. Quem fala (ou lê muito) espanhol precisa, portanto, tomar cuidado para evitar replicar em português a construção castelhana.

As palavras “ambos” e “ambas” em português podem vir sem artigo apenas quando estão “sozinhas”, isto é, quando não vêm diretamente acompanhadas de substantivo: “Visitei as cidades de Mérida e Tulum; ambas são muito bonitas”.

“O tesão” ou “a tesão”? Tesão é masculino ou feminino?

O correto é “o tesão” ou “a tesão”? Tesão, no sentido de excitação sexual, etc., é substantivo masculino ou feminino?

Basta abrir o Dicionário Aurélio ou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras para ver que a palavra tesão, em português, é um substantivo de dois gêneros – isto é, é tão correto dizer “a tesão” quanto “o tesão”, “uma tesão” quanto “um tesão”:

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Dicionário Aurélio:

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O mesmo se vê no Dicionário Priberam, de Portugal, ou no Dicionário Michaelis, que também afirmam que tesão é tanto substantivo feminino quanto masculino.

Há gente que, por ignorância, ri de quem fala ou escreve “a tesão”, “uma tesão”, por serem formas hoje minoritárias. Grande atestado de ignorância, uma vez que, como ensina o Aurélio (foto acima), tesão vem de tensione, isto é, é uma simples deformação de “tensão”, palavra feminina.

Vai ou irá? Irá fazer ou vai fazer? Existe o futuro com “irá”?

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Quem lê a imprensa brasileira nos tempos que correm é obrigado a topar, quase diariamente, com um modismo linguístico condenado inclusive pelos manuais de redações desses próprios jornais: o futuro com “irá” + verbo no infinitivo.

Tome-se qualquer verbo em português – por exemplo, o verbo “fazer”. As gramáticas tradicionais ensinam duas formas de conjugá-lo no futuro do presente: a forma sintética, hoje considerada formal (“Ele fará“; “Nós faremos“; etc.), e a locução com o presente do verbo “ir”, considerada menos formal: “Eu vou fazer”, “Nós vamos fazer”.

Na gramática, não existe a forma híbrida “Ele irá fazer“, “Nós iremos fazer“. Sua popularização e seu uso em substituição da locução tradicional é invencionice de quem não quer usar as formas usuais e corretas (“Ele vai defender”, “Ela vai comer”), mas sabe que as formas no futuro sintético (“Ele defenderá”, “Ela comerá”) se tornaram demasiadamente “pesadas”, solenes demais para a maioria dos contextos.

Resultado dessa insegurança com a própria língua tem sido a proliferação das locuções com “irá”, como nos exemplos acima. Evite o modismo, e fique, com segurança, com a locução tradicional, com o verbo “ir” no presente – “ela vai vir“, “eu vou abrir” – ou, se se desejar formalidade, “ela virá”, “eu abrirei”.


É possível traçar um paralelo entre a situação do fará/vai fazer (e do pseudocultismo “irá fazer”) com a questão, já tratada aqui, dos passados do tipo “tinha feito”/”fizera”/”havia feito”.

Assim como ocorre com o futuro, também para esse tipo de passado a língua portuguesa oferece tradicionalmente duas opções: uma sintética (numa palavra só) e uma locução de mesmo significa – como fizera (que significa o mesmo que “tinha feito”), comera (o mesmo que “tinha comido”), soubera (o mesmo que “tinha sabido”).

Exatamente como aconteceu com o futuro, a forma sintética acabou rareando no uso cotidiano, e por isso ganhou ares de ser “formal demais”. Sem problema, já que a língua tinha uma forma mais palatável, sob a forma de locução: em vez de fizeracomerasoubera é possível dizer tinha feitotinha comidotinha sabido. Mas, exatamente como tem ocorrido com o futuro, muita gente acaba evitando a corretíssima (e portuguesíssima) construção com “tinha” mais particípio, para tentar encontrar uma “saída do meio” no espanholismo que é a construção com “havia” (leia mais a esse respeito aqui).

“Por que” obriga próclise, “porque” também

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Já dissemos várias vezes aqui na página que as próclises erradas são dos erros mais feios cometidos por brasileiros, porque, diferentemente daqueles erros cometidos por quem não teve oportunidade de estudar, usar uma próclise errada é “proeza” cometida apenas por aqueles que tentam “falar difícil” ou “escrever bonito”… e acabam fracassando na empreitada.

É o erro cometido pelo jornalista da Folha de S.Paulo na matéria acima – cuja título é “Por que celebra-se a Páscoa?” – e por todos aqueles que supostamente revisam, editam e aprovam as matérias publicadas. Uma regra básica de colocação pronominal é que a palavra “que” obriga a próclise – isto é, obriga que o pronome venha antes do verbo. A única forma correta é “Por que se celebra a Páscoa?“.

Como a palavra “que” obriga próclise, é errado, portanto, escrever “Foi o que deu-se naquele dia“. A única forma correta, tanto em Portugal quanto no Brasil, é “Foi o que se deu naquele dia“. E a ironia é que todo brasileiro fala naturalmente assim, corretamente. Só erra quem tenta uma inversão para “escrever bonito”.

A palavra que obriga próclise também quando vem sob a forma de por que, em perguntas, e mesmo sob a forma porque, em resposta. Em resumo, em perguntas com “por que” sempre se deve usar o pronome átono antes do verbo.

O mesmo vale para a palavra porque, tudo junto: a palavra atrai obrigatoriamente o pronome átono. Seria errado, portanto, começar uma resposta com “Comemoramos a Páscoa porque recorda-se…“. Não. A única forma correta, em bom português, é “Comemoramos a Páscoa porque se recorda…”. Não é tão difícil, Folha. É só não inventar.

Octagésimo ou octogésimo? Octagenário ou octogenário?

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Octagésimo ou octogésimo? Octagenário ou octogenário? Um tempo atrás, publicamos aqui na página texto sobre como, apesar de a maioria das pessoas espontaneamente dizer “octagenário” ou “octagésimo”, com “a” (“octa-“), os dicionários apenas registravam “octogenário” e “octogésimo”, com “o” (“octo-“).

O que isso significa? Para a maioria dos falantes cultos, a conclusão (errada) a tirar disso seria que, se não vêm nos dicionários, as palavras “octagenário” e “octagésimo” não existem; e que, portanto, quem as usa comete um erro.

Isso porque a maioria dos falantes atribui aos dicionários atributos que eles não têm, nem dizer ter: o de conter todas as palavras da língua, e o de serem verdade absoluta, sem erros.

É erro supor que, se uma palavra não vem nos grandes dicionários, ela não existe ou não pode ser usada. O próprio Aurélio, na introdução de sua obra, afirma que, mesmo o enorme “Aurelião” é, em termos de abrangência, uma obra inframédia – isto é, que contém menos da metade das palavras em uso na língua. Dicionário nenhum traz, nem pretende trazer, todas as palavras de uma língua.

A equipe do Houaiss, por outro lado, admite sem receio que nem tudo que vem em seu dicionário está correto – as pessoas tendem a achar que, se está assim no dicionário, é porque é assim, mas, como vemos com frequência aqui na página, mesmo após 17 anos do lançamento do Grande Dicionário do Houaiss, ainda há nele um número incontável de erros e imprecisões – o que importa não é encontrar um dicionário sem erros (o que nunca existiu nem existirá), mas que a equipe de editores do Houaiss se mantém até hoje em trabalho diário de correção e aperfeiçoamento do material.

Foi precisamente o que fez o editor do Houaiss, por exemplo, quando o autor desta página lhe apontou, que não fazia sentido os dicionários modernos não trazerem as palavras octagenáriooctagésimo, uma vez que ambas tinham todo o necessário para vir num dicionário: estavam formadas corretamente, segundo os princípios da formação de palavras do português; e tinham amplo uso, inclusive entre falantes cultos, e em produção escrita.

As palavra estão bem formadas porque, desde os gregos e romanos, havia alternância entre os prefixos octa- e octo- para se referir ao número oito, e essa alternância se manteve em português: um exemplo disso é que, enquanto um animal com oito patas é chamado octópode, quem ganha oito vezes o mesmo campeonato é chamado octacampeão. Muitas vezes, inclusive, as duas formas se alternam: uma figura geométrica de oito lados, por exemplo, pode ser chamada, em português, octógono ou octágono.

Não apenas existe o prefixo “octa-” ao lado de “octo-“, mas a palavra octágono tem amplo uso, atual e há séculos, em português. Bastou-me juntar um pouco de material a respeito, mostrando que as palavras eram usadas por bons autores hoje e há séculos, e já tinham mesmo figurado em dicionários séculos atrás, para que (como se vê na imagens acima e abaixo, extraídas hoje da versão digital do dicionário), o Houaiss tenha decidido que era correto incluir as palavras “octagenário” e “octagésimo” como sinônimas de “octogenário” e “octogésimo” – mostrando inclusive que as formas com “a” são usadas desde antes de 1720:

Houaiss

O que isso tudo significa? Em primeiro lugar, que as palavras octagenáriooctagésimo, que muitos palpiteiros da língua diziam até hoje serem incorretas apenas por não virem em dicionários, são corretas.

Em segundo lugar, o exemplo de hoje serve como lembrete de duas importantes lições da língua: que todos os dicionários têm erros, lacunas e omissões; e que o fato de uma palavra não vir nos dicionários não significa que ela não exista, não seja correta ou não possa ser usada – pelo contrário, os dicionários são os primeiros a admitir que nunca conseguiriam abarcar todas as palavras corretas da língua, e que nem é esse o seu propósito.

A origem da palavra “tiete” (e de “tietar”, e “tietagem”)

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Só no Brasil é que se usa o verbo “tietar” com o sentido de bajular um ídolo, aproximar-se de alguém de quem se é fã. O verbo vem da palavra “tiete”: um tiete ou uma tiete é um fã ou admirador muito devoto. Mas de onde veio o substantivo tiete?

A origem de uma palavra é o que se chama etimologia. Saber a etimologia exata de uma palavra é, em geral, tarefa ingrata: na maioria dos casos, a etimologia é incerta, e muitas origens que circulam pela Internet (e mesmo muitas que estão nos dicionários) são simplesmente erradas.

Quem recorrer, por exemplo, ao dicionário Houaiss para saber a origem de “tiete” lerá, na parte de etimologia, que a o termo é “atribuído ao hipocorístico Tiete (admiradora do cantor brasileiro Ney Matogrosso)“.

O problema? A informação é falsa. O próprio cantor Ney Matogrosso, ex-vocalista do grupo Secos & Molhados, participou, em 2010, de documentário sobre outro grupo musical da década de 1970, chamada Dzi Croquettes (seus integrantes aparecem na foto acima), e no próprio documentário se esclarece que o termo “tietes” foi criado e disseminado pela banda Dzi Croquettes, e não pelos Secos & Molhados ou para se referir especificamente a qualquer fã de Ney Matogrosso.

O problema torna-se ainda maior graças à confiança cega que a maioria das pessoas têm nos bons dicionários, como é o caso do Houaiss; a maioria dos brasileiros acha que um dicionário como o Houaiss ou o Aurélio não erra nunca – tendem a confiar cegamente em tudo que leem nele, e disseminam o que neles vem como se verdade fosse. Pela Internet, por exemplo, há dezenas de páginas que simplesmente repercutem a informação errada dada pelo Houaiss – de que “tiete” viria de uma fã de Ney Matogrosso – como se fosse verdade.

Como vemos sempre aqui na página, o Houaiss é um excelente dicionário – de longe o melhor dicionário de português existente hoje -, mas, apesar disso, tem erros – muitos erros, centenas de erros. Já vimos dezenas de erros do Houaiss aqui – vários e vários deles foram corrigidos pela própria equipe do Houaiss após termos tratado deles aqui, mas ainda assim, pelo próprio tamanho e pela natureza da obra, continua a haver e é provável que sempre haverá erros.

Não existe dicionário perfeito, sem erros – o importante, assim, é simplesmente não levar dicionário algum como uma espécie de “livro sagrado”, acima de falhas e erros.

O problema é ainda maior na medida em que os próprios responsáveis por outros dicionários sofrem desse mal de acreditar em tudo que vem no Houaiss – com grande frequência os responsáveis por dicionários menores tendem a simplesmente copiar tudo o que vem no Houaiss acriticamente. É o que em geral faz o dicionário Priberam, de Portugal, por exemplo – que diz que tietar vem do antropônimo (nome de pessoa) “Tiete”. O problema? Apesar de no Brasil haver gente com quase todo tipo de nome possível e imaginável, sequer há no Brasil pessoas chamadas “Tiete” (como se pode ver na página do IBGE). “Tiete” não é um antroponônimo.

Voltando à história da palavra “tiete”: segundo os próprios membros do Dzi Croquettes, a palavra era usada por uma amiga da banda, para se referir a uma conhecida chata, e com o tempo os músicas passaram a usá-la em fins da década de 1970 para se referir aos fãs mais chatos, até que passou a designar todos os fãs – possivelmente na esteira de vários outros termos para fãs terminados em “-ete” que já eram usados no Brasil desde anos antes, como “chacretes”:

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(É, aliás, um processo de processo de formação que até hoje dá frutos no Brasil: existem hoje luletes, neymarzetes, etc.)

Em 1979, a revista Istoé mencionava as chamadas “tietes” e o termo derivado, “tietagem, um termo ainda distante do novíssimo Aurélio, mas abertamente em voga na cidade do Rio de Janeiro”, mas é em 1981, na voz de Gilberto Gil, que todo o Brasil passará a conhecer a palavra “tiete” – Gil lançou naquele ano a canção “Tietagem”, que já se inicia “ensinando” o significado do novo vocábulo:

Você sabe o que é tiete?
Tiete é uma espécie de admirador
Atrás de um bocadinho só do seu amor
Afins de estar pertinho, afins do seu calor

Hoje eu sou o seu tiete
Às suas ordens, ao seu inteiro dispor
De imediato aonde você for eu vou
No ato, no ato
Pro mato, pro motel, de moto ou de metrô

Tititititi
Como é bom tietar
Seu amor inatingível
Tititititi 
E se você deixar
Eu farei todo o possível
Pra alcançar o nível do seu paladar