“Também” exige próclise – em Portugal e no Brasil, em textos formais e informais

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Todo brasileiro e todo português sabe que uma das marcas mais características do português brasileiro, que o difere do português lusitano, é a prevalência, no Brasil, de próclises – pronomes colocados antes do verbo. Assim, todo brasileiro diz “Me dá”, “Nos vimos”, “Me queixei” – enquanto os portugueses dizem “Dá-me”, “Vimo-nos”, “Queixei-me”. Desde o século passado, nossos melhores cronistas, poetas, músicos, etc. usam próclises à brasileira. O mesmo não ocorre, porém, com os jornalistas, que se obrigam a usar ênclises, à portuguesa, em casos em que nenhum brasileiro naturalmente as usa na fala espontânea.

O problema disso? É que, justamente por estarem simplesmente tentando imitar uma colocação pronominal que não lhes é natural e que não dominam, o que mais se vê nos jornais brasileiros hoje são ênclises erradas – mesmo pela gramática portuguesa. E assim, chovem casos como o da foto acima, em que o jornalista escreve “também manteve-se” – uso que é duplamente errado, pois viola a gramática tradicional portuguesa  (que determina que, diante de advérbios como “também”, deve ocorrer a próclise, e não a ênclise) e não reproduz o uso natural de nenhum falante, nem português, nem brasileiro.

Em suma, os jornalistas incorrem no pior tipo de erro, pois acertariam se escrevessem exatamente como falam (usando a brasileiríssima próclise), mas, tentando parecer chiques e seguindo a concepção ignorante de que “se eu falo assim, deve estar errado” e de que “quanto mais diferente da fala, mais correto deve ser”, acabam criando ênclises inexistentes em Portugal e em qualquer norma culta da língua portuguesa.

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O mesmo ocorre com orações com a palavra “que“, ou “onde“, entre outras: a gramática portuguesa tradicional obriga, nesses casos, que se use o pronome antes do verbo (como fazemos sempre no Brasil); todo português escreve “que se deu”, “onde se viu”; mas alguns brasileiros, querendo parecer chiques, acabam inventando construções erradas como “que deu-se“, “onde viu-se” – absolutamente risíveis, por não corresponderem nem ao português brasileiro, nem ao português de Portugal. Em outras palavras: se não quer passar vergonha, na dúvida, não invente e escreva do modo que lhe soar mais natural, do jeito que falaria. Quase sempre, estará certo.

“No Marrocos” ou “em Marrocos”?

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O correto é “em Marrocos” ou “no Marrocos”? Em outras palavras, o nome do país Marrocos leva artigo? As duas opções estão corretas: no Brasil, usa-se com artigo: o Marrocos, no Marrocos, do Marrocos; em Portugal, usa-se sem: em Marrocos, de Marrocos.

Mas por que essa diferença? Há uma explicação:

Como regra geral, os nomes de países levam artigo em português: a África do Sul, a Argentina, a China, a Colômbia, a Eritreia, o Japão, o México, a Zâmbia (há, porém, exceções, como Portugal); e, como regral geral, os nomes de cidades, em português, não levam artigo: diz-se “em São Paulo”, “em Brasília”, “em Lisboa”, “em Maputo” (há, também um pequeno número de exceções, como o Rio de Janeiro).

No caso de/do Marrocos, a questão é justamente que o mesmo nome, “Marrocos”, originalmente designava, em português, uma cidade – a atual Marraquexe (Marrakech) -, e posteriormente tornou-se o nome aplicado a todo o país.

Sim, tanto a palavra “Marrocos” quanto “Marrakech” têm a mesma origem, e é a atual cidade de Marraquexe que primeiro recebeu o nome, em português, de Marrocos; os portugueses chamavam de Marrocos a principal cidade dos antigos reinos muçulmanos do noroeste da África; chamava-se, assim, Reino de Marrocos ao reino centrado na cidade que os portugueses chamavam Marrocos, e os franceses, Marrakech.

Com a evolução da política local – o surgimento do país com suas feições modernas – e o passar do tempo, os portugueses passaram a usar o nome “Marrocos” apenas para se referirem ao país, e, para se referirem à cidade, a fim de evitar ambiguidade, foram cada vez mais adotando o nome francês, Marrakech.

Pelo contato próximo que sempre mantiveram com aquele país, porém, os portugueses mantiveram para com o nome do país o tratamento que sempre haviam dado ao nome, mesmo quando se referia apenas a uma cidade – o uso sem artigo: em Marrocos, de Marrocos.

Já os brasileiros, cujo contato com o reino árabe era muito menor, não tinham por que não acabar por “regularizar” o tratamento dado ao nome do país: do mesmo que modo que “o Egito”, “o Sudão”, “o Congo”, “o Chade”… “o Marrocos”.

Já à época do Brasil Império, no início de 1889,  encontra-se exemplo, no “Annuario publicado pelo Imperial Observatorio do Rio de Janeiro“, do uso com artigo:

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É esse (“o Marrocos”, “no Marrocos”, “do Marrocos”) o uso oficial no Brasil, que se vê tanto em órgãos governamentais quanto na imprensa e, entre outros, no dicionário Houaiss (verbete “marroquino”), ao passo que, em Portugal, mantém-se o uso histórico, sem artigo (“em Marrocos”).

Papua Nova Guiné: com ou sem hífen?

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Uma boa mudança trazida pelo novo Acordo Ortográfico foi uma maior sistematização no uso dos hifens. O caso da Papua Nova Guiné, país situado ao norte da Austrália, era emblemático da confusão: embora o nome do país, em português, fosse “Papua-Nova Guiné“, era comum encontrar, em fontes sérias, grafias como “Papua Nova-Guiné“, ou mesmo “Papua-Nova-Guiné“.

Com o novo Acordo Ortográfico, não há dúvidas: como regra geral, determina o Acordo, os topônimos (nomes de lugares: países, estados, cidades, etc.) não levam hífen. Escreve-se, portanto, sempre sem hifens: Papua Nova Guiné.

 

Quem fica impotente broxa, não “brocha”

Num esforço para dissuadir a população do hábito do tabagismo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária anunciou que passará a imprimir mensagens ainda mais enfáticas nos maços de cigarros, como a de que “Você brocha (se consumir este produto)”. O problema? De acordo com o dicionário Aurélio, o dicionário da Academia Brasileira de Letras, o professor Pasquale, dicionários de Portugal, etc., a grafia correta para “ficar impotente” é broxar, com xis – e não brochar, que tem outro significado.

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Com o sentido de “não conseguir ter uma ereção“, “ser ou estar sexualmente impotente“, “ficar desanimado, sem forças“, a grafia correta é broxar, com x. Algo desanimador é algo broxante, também com “x” . É assim (com “x”) que o Dicionário Aurélio e os dicionários da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa – assim como os dicionários de Aulete, Luft, Bechara, Michaelis, Priberam, e do Professor Pasquale  escrevem as palavras “broxa”, “broxar”, “broxado” e “broxante”, em seus sentidos ligados à impotência sexual.

Existem os substantivos broxa e brocha, nomes de dois objetos diferentes: brocha, com ch, é um tipo de prego curto; enquanto broxa, com x, é um pincel pequeno.

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Já desde o século retrasado, sempre se fez diferença, em português, entre broxa e broxar com “x”  e brocha e brochar com “ch”; e foi sempre a forma com “x” a usada com o sentido informal de impotência sexual, disfunção erétil.

Brocha (com ch) é um tipo de prego, enquanto broxa, com x, é tanto o nome do tipo de pincel quanto um jeito informal de se referir a um “indivíduo sem potência sexual”. Aurélio, Caldas Aulete, Celso Luft, Evanildo Bechara, Michaelis, o Professor Pasquale e os dicionários da Academia Brasileira de Letras registram, assim, também o verbo broxar, com os seguintes significados: 1. pincelar, pintar; 2. perder a potência sexual; 3. (por extensão) perder o entusiasmo, desanimar.

O Dicionário Aurélio traz também o adjetivo broxante: 1. que torna alguém broxa (sexualmente impotente); 2. cansativo, importuno.

As formas com “x” são as únicas aceitas pelo Dicionário Aurélio, pelos Dicionários da Academia Brasileira de Letras e por todos os demais principais dicionários brasileiros – com a única exceção do Dicionario Houaiss – que, apesar de ser um dos melhores, maiores e mais completos dicionários da língua, tem, justamente por ser tão grande, muitos erros – como já vimos aqui.

E um dos erros do Houaiss é misturar broxas com brochas, contrariando toda a história da palavra na língua portuguesa. Todos os dicionários brasileiros do século XIX e XX que registraram a palavra o fizeram com “x”; mesmo na colossal Décima Edição do Grande Dicionário de Moraes, considerada o mais completo dicionário da língua portuguesa até hoje, encontram-se os sentidos de “pincel” e “sexualmente impotente” como significados de “broxa”, e não de “brocha“.

O mais recente Dicionário (o de 2009) da Academia Brasileira de Letras confirma o que sempre se ensinou: brocha, com “ch”, é só um prego; “broxa”, com “x”, é um pincel ou alguém impotente; e broxar é “ficar impotente”:

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Também o Dicionário da Academia portuguesa faz exatamente a mesma distinção: “broxar”, somente com “x”, é que significa “ficar impotente”, “desanimar”:

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Que broxa, como sinônimo de impotente, se escreve com x (e não com “ch”) é o que ensinam ainda os dicionários de Silveira Bueno (“broxar: perder a ereção; perder o interesse, o estímulo; broxante: que faz perder o estímulo ou interesse“), os de Celso Luft, os de Sacconi, o Michaelis, o Caldas Aulete, o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (da Enciclopédia Britannica), o Dicionário de Usos do Português do Brasil (2002), de Francisco Borba, e (foto a seguir) o Dicionário do Professor Pasquale (2009):

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Dicionário de Português Comentado pelo Professor Pasquale – 2009

Em seção em que inclui casos de “erros comuns da língua” e “dicas de português”, o Manual de Redação da Folha de S.Paulo menciona expressamente: “Broxa, com x, significa pincel grande e indivíduo sem potência sexual. Brocha, com ch, significa, entre outras coisas, prego curto de cabeça chata.

O Aulete, aliás, disponibiliza hoje livre acesso ao texto “original” de sua primeira versão, o que atesta que em 1881 em Lisboa (data e local de publicação do primeiro Aulete) já se registrava o uso de broxar, com “x”, com o significado de “Mostrar-se sexualmente impotente.

Também o Dicionário de Usos do Português do Brasil (DUPB), de Francisco Borba – o único dicionário brasileiro a usar um córpus técnico, de ocorrências efetivas de cada palavra na língua escrita, para escolher as palavras que definiria – traz broxarbroxantebroxada, todos apenas com “x”, nos sentidos que remetem a impotência sexual, com exemplos retirados da imprensa brasileira: “Nunca uma interrupção para o tempo técnico foi tão broxante.“; “Foi uma broxada que dei com uma amiga“; etc. Já o verbo brochar sequer aparece entre as 65 mil palavras mais usadas no Brasil registrada pelo DUPB; apenas o substantivo “brocha” aparece, mas em seu sentido próprio, de prego (também abonado por exemplo tirado da imprensa brasileira): “Veio a crise mexicana e o governo brasileiro, mais uma vez, viu-se pendurado na brocha.

Os Grandes Dicionários da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras trazem “brochar” como “costurar as páginas de um livro; pregar com brochas (pregos curtos)”. “Broxar”, com “x”, a Academia Brasileira de Letras define, por sua vez, como “mostrar-se sexualmente impotente”- conforme fotos a seguir:

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Em resumo: desde seu “nascimento” na língua portuguesa (o que ocorreu, conforme registros, antes de 1875), as palavras “broxa” e “broxar”, no sentido de “(ficar) impotente”, sempre se escreveram com “x” em português.

Quando usar “num” ou “em um”? “Numa” ou “em uma”?

Sans titreMachado de Assis (acima, em Memórias Póstumas de Brás Cubas), como todos os nossos bons escritores, sempre usou numnuma.


Há um tipo de pergunta sobre a língua que sempre me assusta – especialmente por chegar com alguma frequência: “quando posso usar “num” em lugar em “em um”?“; “existe mesmo a palavra “numa”?“; etc.

É, aparentemente, mais uma dessas “lendas urbanas” linguísticas dos tempos que correm: uma falsa ideia de que a contração “num” (ou, no feminino, “numa“) no lugar de “em um” (ou “em uma“) seria informal ou a ser evitada. Pois bem, não é verdade: da mesma forma que, em português, “em + o” dá “no”, “em + este” dá “neste”, etc., a preposição “em” seguida da palavra “um” resulta, em português culto, na forma contraída “num“.

A palavra num (e suas variantes numanunsnumas) são portanto formas corretas, históricas e formais – basta ler Machado de Assis (trecho acima) ou qualquer outro de nossos bons autores, brasileiros ou portugueses. Em Portugal, aliás, sempre se escreve “num” e “numa”, e essa obsessão por “desmanchar” todo num em em+um já é até vista como uma mania tipicamente brasileira e moderna (mas sem  justificativa gramatical, nem mesmo linguística, uma vez que, na fala, continua-se a dizer “num”).

Mas o fato é que, hoje, na imprensa brasileira, cada vez mais a contração “num” é substituída por “em um”, como se fosse mais “chique” escrever assim, separadamente. Pois bem, para que não fiquem dúvidas: não é; não é nem mais chique, nem mais elegante, nem mais formal escrever que alguém está “em um” lugar do que escrever que a pessoa está “num” lugar.

Pelo contrário, esse “desmanche” da contração, que hoje se vê no que se escreve no Brasil, nada mais é que uma clara hipercorreção – uma consciente e forçada tentativa de “corrigir” o que já estava absolutamente correto, achando, com isso, estar mais distante da língua falada e, portanto, mais próximo da língua culta.

Um grande erro, portanto, já que, como já dito, basta abrir nossos melhores textos de nossos melhores autores, de qualquer período, para ver que estes sempre usaram muito mais numnuma do que em umem uma.

Separar todos os nunsnumas, como parece ser a norma em certos jornais brasileiros, nada mais revela, portanto, que uma certa cafonice e uma insegurança linguística, ao inventar uma norma antinatural e que não é recomendada por nenhuma gramática ou bom autor.

A ironia é que, embora fujam sempre do “num” e “numa”, esses mesmos falantes inseguros não pensam em substituir “naquele” por “em aquele”, “neste” por “em este”, “nas” por “em as”.

(Isso leva a supor que o “medo” do num tenha uma origem diferente: pode ser o fato de que, popularmente, muitos brasileiros dizem num em vez de não – “eu *num quero“, o que é socialmente estigmatizado; talvez tenha sido o “medo” de deixar escapar um desse “num” (variante popular de não) que tenha feito que algum inseguro falante tenha optado por, pessoalmente, nunca mais usar num nenhum na escrita…)

Em resposta, portanto, à pergunta inicial – quando se pode usar “num” em lugar de “em um”, ou “numa” em lugar de “em uma” -, a resposta é: sempre. As formas contraídas num numa são as tradicionais da língua portuguesa, são de longe as mais usadas por nossos melhores escritores e não têm absolutamente nada de menos elegante, menos formal ou menos culto do que as menos naturais formas separadas “em um” e “em uma”.

“Hein” ou “hem” ou “em”? Como se escreve “hein”? Hem? Em? Êim? Heim? Ein?

Muita gente pergunta como se escreve aquela silabazinha que se usa ao final de uma frase para reforçar uma pergunta – aquela, do “Que bonito, hein?“, ou “Tá podendo, hein?“. Usadas sobretudo na linguagem oral, não raro a vemos escrita, na Internet, das mais variadas formas: “Que bonito, hem?”, “Tá podendo, em?”, “heim“, “ein“, “en“, “eim“, etc. Mas, afinal, existe um jeito certo de escrever esse “eim” usado como pergunta?

Resposta: O jeito certo de escrever o som que se coloca ao final de uma pergunta é “hem” – forma que se encontra em dicionários, gramáticas e é inclusive, oficializada no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Os dicionários, atualmente, admitem também a grafia “hein“, que nos chegou há muito tempo do francês, e quemas frisam que a forma correta é mesmo “hem”. É incorreto o uso de qualquer outra forma: não se deve escrever heimhenehneim, ou em.

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Sim, a verdade é que mesmo as interjeições têm uma grafia correta, “oficial”. No caso da silabazinha que se coloca após uma pergunta para reforçá-la, pronunciada “êim” ou “êin” (um “ei” com final nasalizado), os dicionários e gramáticas tradicionais determinam que a escrita correta é “hem“.

E por que “hem” e não “hein”, “ein”, “heim”, “eim”, etc? Pela simples razão de que esse som, o de “-êim“/”-êin” nasalizado final, deve ser escrito “-em” (em palavras com mais de uma sílaba, com acento: “-ém”). É uma regra da ortografia do português. Basta pensar na palavra “vem”, que rima com esse “hein”. Ou em “trem”, “bem”, “tem”.

A palavra “hem” está inclusive nos Dicionários e no próprio Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras. Já na primeiríssima edição do Aurélio, lá estava a palavra: hem, interjeição, que “denota não haver a pessoa entendido bem o que lhe falaram, ou ter ficado indignada ou surpresa com o que ouviu; pode equivaler também a ‘não é verdade?’. Hem é ainda a forma recomendada pelas gramáticas tradicionais – que condenavam o uso, que se faz, no Brasil e em Portugal, há muito tempo, da forma “hein“, copiada diretamente do francês.

Nas mais recentes edições do Aurélio e do Houaiss, a alternativa “hein” passou a ser incluída, tamanho é o seu uso, mas remetendo para a forma clássica portuguesa, hem.

Para sedimentar qualquer dúvida, o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, para além de todas as regras mais conhecidas de todos, eliminou definitivamente qualquer dúvida que poderia haver quanto à grafia da interjeição em questão; o Acordo Ortográfico traz, especificamente, exemplos de “interjeições escritas com a letra hhã?, hem?, hum!.”

É por essa razão, também, que outras grafias que por vezes se veem – como em ou en ou ein – também são incorretas para grafar a interjeição. As duas únicas formas de fato registradas em dicionários são hein, forma francesa, e hem, forma legítima portuguesa.

O plural de guardião: guardiães ou guardiões

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Num mesmo programa de TV, ao usar o plural da palavra “guardião”, o apresentador fala em guardiães, enquanto a apresentadora, sua colega, fala guardiões. Quem errou? Nenhum dos dois: tanto guardiães (forma tradicional) quanto guardiões (forma mais recente) são corretas. A explicação para isso, porém, é longa:

A história de por que as palavras terminadas em “ão” podem ter diferentes plurais (irmão, irmãos; avião, aviões; alemão, alemães) já foi explicada anteriormente: o fato é que existem três terminações “ão” em português, cada uma com uma forma anterior distinta: -an, -on e -ano, que, na passagem do galego para o português moderno, deixaram de distinguir-se, transformando-se todas em “ão”.

Aí, ajuda o conhecimento etimológico – ou também serve o conhecimento da língua espanhola. Isso porque o espanhol manteve as três terminações diferentes (-an, -on e -ano), e basta saber como uma palavra terminada em -ão é pronunciada em espanhol para saber qual será seu plural em português (-ães, -ões ou -ãos, respectivamente).

Em espanhol, por exemplo, cão é can; pão é pan; alemão é alemán; e capitão é capitán. Coerentemente, todas elas têm o mesmo plural em português: -ães (cães, pães, alemães, capitães).

Os terminados em -on, que formam o maior grupo (avión, canciónconstitución, corazónexportaciónmaldición, razón), são aqueles que, em português, têm o plural em -ões (ações, aviões, canções, corações, constituições, exportações, maldições, razões).

E aqueles que em espanhol terminam em -ano (mano, ciudadano, hermano, huérfano, grano, órgano) são os que, em português, têm plural em -ãos: mãos, cidadãos, irmãos, órfãos, grãos, órgãos.

Seguindo, portanto, a regra acima, teríamos que o plural de guardião (em espanhol, guardián), conclui-se que o plural em português deve ser guardiães. E essa forma é, de fato, correta, e foi, com efeito, por muito tempo a única aceita.

Mas todas as línguas vivas estão sempre em meio a processos de mudanças, causados pelo uso que delas fazem os seus falantes. E, em muitos casos, os falantes, primeiramente sem querer, passaram a confundir terminações de palavras de diferentes origens; por ser o mais numeroso, o grupo do -on (que faz o plural em -ões) acabou “contaminando” algumas palavras dos outros dois grupos, que passaram a admitir, além do plural etimológico, também a forma em -ões, que de tão usada acabou por se tornar aceita e, com o tempo, até mesmo a mais usada.

É por isso que guardião, por exemplo (em espanhol guardián) admite, além do plural etimológico guardiães, também o plural guardiões.

É também o caso de verão ou de anão, por exemplo; pela regra acima exposta (em espanhol, diz-se verano enano), os plurais deveriam ser verãos e anãos – e de fato essas são formas historicamente corretas, e ainda hoje aceitas, embora já até causem estranheza, tendo sido quase totalmente substituídas, no uso, pelas formas regulares verões anões – que, no início, eram “erros de português”, mas que, de tão usadas, acabaram se tornando corretas.

Do mesmo modo, houve um tempo em que o único plural aceito de guardião era guardiães; como em todas as línguas existe uma tendência à regularização de formas irregulares, há muito se ouvia, com cada vez mais frequência, guardiões – que, de forma errada, passou a ser uma opção também aceita, e a tendência é mesmo que, no futuro, substitua quase que plenamente a forma etimológica – como já praticamente ocorreu com verõesanões. E assim evolui, dia a dia, a língua.